Poeminto

Não dê

Não dê a qualquer um os seus poemas

Eles são fracos demais para aguentá-los

culpam os outros, contornam o espaço

para negar tua rima entregue.

Não importa os olhos que lhe comovem

Não dê a qualquer um os seus poemas

Rasos, fundos, úmidos, secos

Falta mão para segurá-los

Os poemas gritam no colo dele

e você mal pode acalmá-los.

Não dê a qualquer um os seus poemas

Se a tocam fundo é porque levam consigo

O que há em você de mais esquecido

Não importa que mãos a enlaçam

Não dê a qualquer um os seus poemas

Que a palavra uma vez dita

faz do sonho falado a ação vivida

e faz da história imaginada

a verdade fundante desse mundo.

Por isso

escuta

NÃO DÊ A QUALQUER UM

(os seus poemas)

 

Eles são a sua proteção mais certa

da sua expressão mais errada.

varo

 

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Tra-lá-lá

Sobre cafés e mulheres

Há muito tempo não fazia café árabe, do jeito que a minha mãe ensinou, logo que acordava. Ele é um café que não se faz para uma pessoa só e eu morava há um tempo sozinha. Deixava para fazer quando tinha gente em casa.

Agora, tenho uma companheira de casa, uma grande amiga, uma mulher que todo dia me ensina um pouquinho.

Curiosamente, enquanto eu fazia o café pra ela – a Gabi -, eu recebi a mensagem da Miriam, dizendo que sentia saudade do meu café. E fui me lembrando de algumas pessoas muito especiais pra mim que gostam muito do meu café – gente até que nem gosta tanto assim de café, mas gosta do meu.

Olhei pra Nespresso com carinho. Ela me salva na correria do dia a dia, é verdade, mas é claro que ela não é o meu café. O meu café não tem só café. Tem café e tem carinho. Tem café e tem história.

Sabe quem me ensinou a fazer café? Eu já disse lá em cima, minha mãe. Ela que me ensinou a acolher as pessoas na minha casa, no peito, no meu colo, no meu abraço.

Minha mãe tem o melhor abraço do mundo, o meu fica pequeno perto do ela, mesmo ela sendo cotoquinha. Ela também tem o melhor café do mundo, mesmo que eu ache o meu muito bom.

Café sempre vai ter pra mim um quê de cuidado. Não faço café pra qualquer um, não. Até faço na Nespresso, mas não dá para colocar amor e pó na água de quem não sabe retribuir. Em quem não aprendeu a amar.

Hoje, então, enquanto eu fazia café pra Gabi eu agradeci minha mãe. E minha avó que ensinou minha mãe. E minha bisavó que ensinou minha vó. E todas as mulheres que às precederam com tantos cafés, amargos e doces, como a vida diz que é.

E à Gabi, por estar ao meu lado. E, mentalmente, à Miriam, que me lembrou da importância do meu café e das mulheres que, lado a lado, constroem, quente como café, a minha história.

Minha mãe vai achar esse texto liiiiindo. Ele é bobinho. Mas ela me ensinou, também, a ver a beleza nas menores coisas. O mundo é lindo mesmo, mamãe.

cafe

 

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Cartas d'ela.

Não, fica.

Não é raro encontrar por aí pessoas que repetem de peito cheio “não quero namorar” ou “não estou pronto para relacionamentos”. Eu sou uma dessas – ou fui, não sei.

1

A gente tende – com razão – a achar melhor se preservar quando acabou de sair de algo doloroso (e por melhor que seja um término, ele sempre será inevitavelmente doloroso).

O tempo, para gente que tem a dor fresca na pele, é tão importante. Voltar a entender do que a gente gosta, o que a gente é, ter controle total sobre os nossos dias, planos e sonhos. Olhar bem pra dentro e reconhecer os nossos valores.

Será que eu gosto mesmo de tapioca de manhã ou era o costume?

Nossa, que sabor que tem uma pizza de sexta depois do trabalho, eu nem lembrava!

Prefiro vinho a cerveja. Sim, no calor, também.

Eu não sou uma pessoa difícil.

3

Eu já pulei de uma relação para outra sem ter me dado nenhum tempo e me senti mal, e me confundi muito. Eu – que não sou ninguém pra dar pitaco na vida alheia – sempre acho saudável aquele tempo sozinho, ruminando os caminhos de dentro da gente. Essa coisa de ficar migrando de uma história a outra me soa uma carência latente, quase um desespero para fugir da solidão. Gente que tem medo de silêncio tem medo de si mesma.

2

Apesar disso a vida não para. E ela atropela a gente com uma história que ninguém planejou, ou que as pessoas, nem as mais insanas, cogitariam que poderia acontecer.

Optamos, porém, por ficar sozinhos. Porque a gente não está pronto.

Andei pensando – mais observando, na realidade – o momento em que essa vontade de ficar sozinho (porque é saudável e bom) vira uma casca impenetrável. As pessoas, às vezes, se convencem tanto (mas tanto!) que devem ficar sozinhas que sabotam seus próprios sentimentos e intuições. O corpo todo diz que sim, cada poro diz que sim, mas  o cérebro acha melhor não.

E pior: deixam passar pessoas incríveis, experiências plenas, histórias que ficam sem contar.

4

É engraçado que nós – os autosabotadores do amor – pensamos: MAS EU NÃO TAVA PROCURANDO, EU QUERIA FICAR SOZINHA.

Eu também não estou procurando emprego, mas eu recusaria uma super proposta?

Eu também não estou procurando uma viagem para o Nordeste, mas eu recusaria se ganhasse um sorteio?

Eu também não estou procurando amigos, mas recusaria um amigo?

Não, não e não. E tem pessoas que aparecem nas nossas vidas que são infinitamente melhores que um emprego, uma viagem ou amigo. Tem gente que só de estar faz da quinta-feira de tarde virar um sábado de sol no nordeste.

Tem gente que não é emprego novo, mas renova o jeito da gente ver o nosso.

Tem gente que não é amigo novo, mas relembra pra gente o que significa cumplicidade.

4

Não há, eu imagino, nada mais legal do que gente que está inteira nas coisas: no trabalho, nos estudos, nas conversas, nos almoços. Toda vez que a gente acredita piamente que não pode se entregar a algo que está bom, a gente fica pela metade.

E quem tem só metade – eu me lembro de ter escrito uma vez – não tem nada a oferecer.

Que esse texto seja uma lembrança cotidiana que não tem “nada a ver ficar sonhando separado, se no fundo a gente quer o dia a dia, lado a lado”.

Pra mim, pra você, pra quem, mesmo relutando, sabe que tem coisas que a gente não pode deixar ir assim.

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Cartas d'ela., Pensamento Desvairado

Vamo lá, time.

Não contra, junto; não versus, mas versos. Disparados no placar. Não há adversário que dê conta. Se você ganha, eu também ganho; se você perde, eu divido a culpa. Se eu posso, você topa; se você não pode, eu me ajeito. Sem jogo, pra gente não competir. Sem tacada, sem mentira, sem conversinha.

só a nossa boa e velha honestidade.

só o nosso bom e velho papo.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Porque eu sou competitiva. E eu vou ganhar, eu sempre vou ganhar: ou eu ganho, ou o jogo acaba. Se você fica do outro lado, perco eu, perde você; perdemos nós os nós.

O maior erro é quando a gente faz do amor um jogo. Sabe o senso de pertencimento? Eu quero pertencer a você. Eu gosto de você lutando por mim assim como eu vou lutar por você. Gosto como a gente forma uma boa dupla. Gosto de como a gente fica mais forte. Não é que a gente precise; mas funciona melhor assim: tipo gangorra, eu quero ser teu impulso.

Sozinha eu dependo do chão pro meu balanço voar. Com você, só dos seus braços e do empurrão certo.

Não vai ter medo, sabe? Ninguém tem medo quando sabe que, se cair, tem quem segure. Que se tudo girar, tem quem centralize. Que tem alguém que fecha com você.

O amor acabou quando eu tentei ser mais que você e não mais com você. O amor acabou – e seguirá acabando – quando você quiser sorrir acima de mim e não comigo. O amor acabará quando você não puder mais comemorar as minhas vitórias cansadas e chorar meus cansaços vencidos.

Dupla é de dois. De um nem é time, não. Se a gente vai juntinho, vai bem.

Porque nós dois somos um time campeão.

maos-dadas

 

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Poeminto, Tra-lá-lá

Cantiga de sorte

Eu não sou esse batom vermelho

nem as minhas tatuagens.

Eu não sou essas roupas coloridas,

nem as milhões de bijuterias balançando e te distraindo.

Eu não sou essa cerveja,

nem essa ressaca.

Gosto do sacolejo da música que toca ao fundo da gente.

exatamente aqui, olhando pra você.

Eu não sou, lembre-se sempre, essa história mal contada de mim.

Eu não sou as suas expectativas – uma pena,

eu não sou seu ideal.

(nem seu mal, nem seu mal)

Eu não sou aquela aula,

nem o livro que eu carrego debaixo do braço.

Eu não sou só a fome

mas queria mastigar cada pedacinho de você.

Eu não sou os meus textos,

nem meu apartamento bagunçado.

Eu não sou essas plantas,

nem o leite,

nem o suco,

nem as frutas que eu trouxe pra ti.

Se eu pudesse,  quer saber, acho que eu te engoliria.

Porém

eu não sou esse vestido preto,

nem esse comentário confuso

Eu não sou nem poeta,

nem nada de novo no mundo.

Eu não faço a mínima ideia do que eu sou

e de quantas de mim eu ainda posso criar.

Um universo todo

uma mulher

– sortuda, isso eu sou!-

‘múltipla, desarticulada, longe como o diabo’

é só amor que me fixa nos caminhos do mundo.

 

picasso7

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Cartas d'ela.

Cartão de Natal

Vai parecer mentira se eu disser que eu gosto mais de cartão de natal do que de presente de natal. Mas é verdade: eu gosto bem mais! Não tenta me atacar dizendo: ah, então vou te dar só o cartão, porque – eu te juro, juradinho – eu não vejo mal nenhum nisso. Quem me conhece bem, sabe: escrever, pra mim, é a coisa mais importante. Bilhetinho, cartinha, cartão. Eu gosto mais da dedicatória do que do livro. Gosto mais do cartão do que das flores. Gosto mais da mensagem de madrugada do que um vestido. Palavra é um negócio importante demais: e eu me alimento delas.

Já me apaixonei por pessoas que não me escreviam e que me convenciam que não importava escrever, importava viver o amor. Não acho que seja mentira, mas, pra mim, que escrevo na pele, no diário, na agenda, na lousa – o amor também se constrói escrevendo.

Todas as formas de amor.

Eu amo os chocolatinhos que recebo dos alunos. E os brincos. E os batons: mas nada supera o bilhete, a cartinha, nada, nunca, superará as palavras.

Ouvi uma vez que ‘o papel aceita tudo’, e que era mais fácil mentir escrevendo – isso dito numa tentativa de hierarquizar a ação e a palavra, como se a ação necessariamente superasse as palavras. O papel não aceita tudo, não. Se forçosamente se escrevem mentiras, o papel, no fundo, sangra.

E se você é do tipo que escreve mentiras, então você é a pior espécie de gente que existe: aquela que não merece nem o papel, nem a caneta, nem a beleza da palavra escrita, que pode ser lida e relida, incansavelmente, até a gente decorar o que tá escrito.

Já ficou lendo uma mensagem, um cartão, um bilhete até que as palavras ficassem em você? Talvez seja o prazer mais genuíno que tem no despertar do amor. No amor maduro. No fim do amor, também.

Ler silenciosamente. Em voz alta. Para alguém importante. Enquanto eu puder (te) ler, eu sei: tá tudo dando certo.

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esse eu ganhei do meu irmão, hoje. Não tem nada mais legal pra ganhar de presente.

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Poeminto

Poesia é brega

Eu queria te escrever poesia

Fazer café

e dormir cansada,

sem medo.

Eu queria gritar teu nome pela janela,

Calando minha voz aqui dentro.

Queria te ligar pra dizer nada,

E alisar esse teu cabelo.

Eu queria contar do meu dia

E na contramão do teu,

Sorrir um monte.

Pedir pra ficar do teu lado.

Eu quero uma taça de vinho,

Meu chocolate amargo

Quero sempre um chá quente

Uma massagem no pé.

O fim das guerras,também

O fim do sofrimento, claramente

O fim das opressões, para logo

Tudo que eu mais amo, eu quero,

continuamente

insistentemente

Exceto você, assim leve…

Eu não quero amanhã

Eu não quero a vida toda

Eu não sei da semana que vem

Só que agora

especialmente nessa hora

eu só queria você.

arcadismo

esse poema só não é mais brega que esse quadro árcade

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