ponto-e-virgula7

Poucas coisas nessa vida são mais parciais e pessoais do que a sensualidade. Todo mundo já se revirou na cadeira quando alguma amiga ou amigo fez um elogio sensual para aquele rapaz mais torto que o quadro do Picasso ou aquela menina que derreteu antes de chegar na festa. E são elogios sinceros, porque sensualidade é exatamente isso: ver o que ninguém vê. É claro que o Jamie Foxx vestido de Django é lindo para maioria da população com equilíbrio mental adequado, mas existem coisas que me tiram do meu estado normal de uma maneira que é preciso dizer: ponto-e-vírgula. Gente, sério, não pode existir nada mais sexy que uma pessoa que sabe usar com precisão o ponto-e-vírgula: é um ser humano seguro, decidido, que entende que aquilo, enfim, não é um ponto-final – porque, de fato, não é hora de terminar -, nem uma vírgula, porque esta tem uma certa falta de dramaticidade, fica assim sempre meio corriqueira e banal demais. Pensem, amigos e amigas, em homens e mulheres que sabem usar o ponto-e-vírgula: eles podem conquistar o mundo. Imaginem o que uma pessoa, capaz de produzir todo um período bem pontuado não é capaz de fazer quando questões gramaticais ficam irrelevantes? Nem posso continuar pensando, porque isso me desconcerta. Sigo imaginando que saber usar o ponto-e-vírgula não seja mero conhecimento de causa, pois isso qualquer consulta a uma gramática resolveria. O poder do ponto-e-vírgula é próximo a um talento, a um dom. O ponto-e-vírgula, meus senhores, é a prova cabal de que um homem ou uma mulher que o conhece nunca vai te deixar na mão quando a oração acabar e o sentido carecer, ainda, de uma longa e deliciosa extensão.

Nota.1.A autora não usou propositalmente ponto-e-vírgula nesse texto porque acredita ser antiético seduzir leitores despreparados.

Nota.2. A autora optou por hífen no ponto-e-vírgula por se sentir sincera e pessoalmente seduzida por essa grafia.