Cartas d'ela.

Os meus óculos.

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Quando eu tirava os óculos não te via muito bem, mas eu gostava da cara engraçadinha que você fazia, seguida de um sorriso, dizendo que eu era um pouco vesga. Dava um pouco de raiva, um pouco de amor. Agora, assim, dá saudade. Você sempre falou dos meus olhos como se eles fossem a parte mais impactante de mim. Eles são castanhos, míopes e um pouco estrábicos. Nunca entendi, mas eu gostava. Sempre achei que quando eu pudesse parar de usar óculos, você olharia para mim ainda mais fundo – você que conhece toda a extensão da minha alma. A minha impressão é que sem os óculos você me devastaria de uma maneira tão pesada que eu pararia de ser eu um pouco eu e viraria você. Entrando pela janela da minha alma e me trancando por dentro, para eu nunca mais sair. Eu tirei os óculos, eu olhei pra você e você não me reconheceu. Não sorriu para mim, nem disse que gosta quando eu os pinto de preto. Que pena. Meus olhos continuam castanhos, meio vesgos, mas você não os reconhece mais. Agora, você diz que não tem certeza se sabe quem eu sou, então eu saio procurando meus óculos por aí. Onde eles podem estar? Procuro meus óculos, encontro e os visto: dessa vez, não para te enxergar melhor, mas para ver se você volta a ser um borrão no escuro.Assim posso imaginar nesse borrão o sorriso e o amor que eu perdi.

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