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8 de março de 2013.

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São sete da manhã de uma sexta-feira. É preciso lidar com uma costela trincada, um coração partido e uma mesa lotada de trabalho. A minha cama tenta, ainda, me convencer que todas as dores vão se curar com mais cinco horas de sono. Mas não vão. Talvez a costela precise de repouso, mas o trabalho acumulado criaria tamanho peso sobre os ombros que é possível que a pobre costela flutuante, levemente machucada, quebrasse de vez. Antes de começar a ler as tantas coisas que ali me esperam, é melhor ler as notícias. O Feliciano – uma ironia na infelicidade do nome e da vida – foi eleito. O chorão morreu – não sabia fazer poesia, mas que se foda, não queria que ninguém morresse assim. O Chávez também .E parabéns para as mulheres. Oba, parabéns para mim. Enquanto eu tenho a impressão claríssima de que tudo de fundamental já foi dito sobre a questão da mulher; tenho, em contrapartida, a certeza de que nada é posto em prática. Posto isso, então, a mim me reservei o direito de não dizer nada que diga a respeito à questão da luta feminina e da sua importância – luta com a qual coaduno, fico comovida e pela qual movimentarei – e serei movimentada – até o fim da minha vida (ou até que a sociedade funcione de tal maneira que ela será desnecessária. Pena que até meu otimismo duvida disso). Falarei – o mais sucinta e breve possível – das dores que me competem. Ontem, aquela amiga me ligou. Trocamos felicidades, sucessos, dividimos aqui e ali algumas dores Ela me disse que só uma mulher pode enterrar o sentimento de maneira que ele não volte, que ele não machuque de novo: de modo que ele se torne a saudade bonita perdida em um blog abandonado. De acordo com a amiga, o homem não enterra o sentimento, é como se ele não se esquecesse, mas só pudesse se arrepender depois, quando o enterro tivesse sido feito. O meu velório tem sido longo, e se arrasta por dias. Como se todos exigissem que o enterro acontecesse e eu, quase uma Penélope do século XXI, ficasse esperando que o meu Ulisses chegasse à Ítaca Barão-Geraldense e me falasse um pouco mais sobre o Simmel – porque o arco-e-flexa dele é um livro. Brincando de penélope, é como se eu acendesse e apagasse a vela do meu velório e não pudesse enterrar aquilo que tem consumido meus dias, minhas horas e todo o fôlego que a costela machucada me deixou sobrar. Mas hoje é dia 8 de março de 2013. Dia internacional da mulher e eu fico me perguntando o que as mulheres do mundo inteiro diriam para mim? Enterra. Acho que eu sentiria o calor da Joana D’arc chegando perto e murmurando ao meu ouvido: enterra. Pagu esbaforida gritaria que se eu não enterrasse ela enfiaria a sua piteira na minha costela machucada. Enterra, enterra – suspirariam todas as feministas com os sutiãs em chamas. Enterra, diria Maria Madalena, abraçando-me com uma certa ternura maternal. Enterra, querida flor vermelha, enterra. Enfaixo minha costela na tentativa de imobilizá-la, porque o esforço físico vai ser grande e aproveito, assim como quem não quer nada, para aquecer meu coração. Prendo os cabelos com cuidado, olho para as unhas e me certifico que nenhuma está para quebrar. Sorrio para todas as mulheres que estão me olhando e esperando. Saco a enxada e cavo o buraco. Não o meu buraco, porque hoje é sexta-feira e o resto da vida está me ligando, mas o dele – do sentimento – cuja última vela acabou de queimar. Au revoir.

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