Cartas d'ela.

picasso

Eles são insuportáveis. Mais melosos do que um sorvete de doce de leite com calda de caramelo e granulado de chocolate. Eles grudam, eles não se desgrudam. Ficam horas se olhando como se algo novo pudesse sair daquele olhar que já está assim há horas, repito. Reparem: ela dá um sorriso no meio desse olhar eterno e ele retribui com outro, como se assim a monotonia daquele olhar incansável diminuísse. Eles são inteligíveis, qualquer um entende com facilidade o que se passa na cabeça dos dois: ela acha que ele não poderia ser assim, isto é,  um compêndio de todas as características que ela aprecia – todas!-  contempladas em um único homem. Ele fica se perguntando por que não a conheceu antes. Eles são indelicados e pairam quando andam de mãos dadas como se não se misturassem com o resto do mundo, sorrindo ao acaso, ao desespero, aos problemas: eles não conseguem se preocupar, porque tudo se justifica em um universo reduzido, composto unicamente por duas vidas: a dele, que é dela; e a dela, que é dele. Eles começam a te confundir e, em alguns momentos, você se pergunta se aquela pele que você vê é mesmo dele, ou dela. O cabelo que enrola nos dois viria de qual cabeça? Aquele sorriso, é obra dele ou dela? Os dedos enlaçados em forma de nó? Até as unhas pintadas você chega a cogitar que poderiam ser do moço, que é todo moderno. E o que isso te interessa? Eles são inconstantes: querem fazer tudo ao mesmo tempo: jantar, almoçar, dormir, ler, rever, reconhecer, ouvir, deitar e não fazer absolutamente nada, desse modo, juntos.E você que olha pra eles sente uma preguiça imensa, quase pecaminosa. “Que se danem”, você pensa toda vez que eles deixam você passar na frente da fila do mercado, porque eles não tem pressa nenhuma. E você, uma pessoa que sabe que a vida não é fácil, não pode conviver com essa realidade tão negligente. Juntos, se perdem no tempo o tempo todo. Eles são indiscretos: não sabem disfarçar a maior infâmia humana: estarem completamente apaixonados e descrentes de uma vida que não seja aquela. Eles são invioláveis: nada os atinge. Nem o seu desprezo, nem sua inveja, nem o Feliciano, nem o preço do tomate. Só a saudade. Eles são incuráveis, morrem de dor de uma separação que não leva mais que dois dias e uma noite. E o mundo aí, todo errado, você pensa. A nostalgia é de uma outra natureza. Eles deveriam ler mais, não é? Ver que o mundo não é assim tão bom, que a gente não pode parar de trabalhar porque a pilha de textos em cima da mesa é menos interessante que um abraço que encaixa assim no seu. Ele vai te deixar, você tem vontade de dizer pra ela. Eles nos deixam: pelo nosso cabelo, pelo batom, pela  nossa tpm. Elas não te levam a sério. Elas acham, rapaz, que vocês vão sempre ser imaturos. Que vão trocá-las pela primeira moça mais bonita, mais simpática. Elas não confiam em vocês e isso é um dado historiograficamente confirmado. Eles não se comovem como elas, e esse é uma informação ridiculamente dada. Conforme-se, você, assim sozinha. Assim cansada. Eles são insuportavelmente lindos. Insuportavelmente sinceros na ingenuidade do que sentem, Insuportavelmente felizes. E idênticos a nós.

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Eles.

Nota

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