Cartas d'ela., Humorfina

Submissão de projeto de pesquisa à FAPAM (Fundação de Amparo à Pesquisa Amorosa)

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É curioso como eu ainda faço questão de entender por que, enfim, eu gosto tanto de você. Das coisas inexplicáveis do mundo (de onde vim, para onde vou, o que eu fiz com o meu salário) essa é a pergunta que mais me incomoda.  Penso nisso todos os dias. Quando te vejo, então, a questão ganha caráter epistemológico e não há teoria, nem estruturalista nem pós-moderna, que resolva meu sofrimento. Ainda assim, sem bolsa e sem perspectiva teórica, embrenhei-me esses dias nesse desafio ontológico: achar uma causa que seja para esse sentimento/sensação/loucura – a questão terminológica ainda não foi definida na minha pesquisa.

Lancei hipóteses iniciais, ancoradas meramente no aspecto estilístico: a pinta na boca, a clavícula, os olhos. Dentre esses três pilares, achei os “olhos uma tópica já batida, recorrentemente usada e sobre a qual eu não teria literatura suficiente para acrescentar algo de novo. Preferi reter-me à clavícula e à pinta no lábios: ambas pouco trabalhadas e igualmente recorrentes no que tange o universo de razões pelas quais eu sinto tanto a sua falta.

Materiais e métodos possíveis para a pesquisa: o cheiro de menta que sai da sua boca e gruda, que nem o post-it que me lembra da data do relatório, aqui, exatamente na minha nuca. Seu perfume, aquele típico material de consumo, cujo uso eu não consigo justificar no meu relatório de contas: seu parecerista, eu o consumi pelas narinas. E o pouco de reserva técnica perfumística que restou na minha cama, eu não deveria devolver? Não, eu egoisticamente gastei, alimentei, sem responsabilidade social alguma, a minha saudade.

Não, eu não tenho cronograma algum para te apresentar. Não sei a ordem dos meus dias, nem quando eu consigo aplicar a metodologia quase heurística que eu desenvolvi: a de descobrir, com uma análise minuciosa das suas mãos, como mantê-las entrelaçadas às minhas o maior tempo possível. Programo algumas viagens de aprofundamento. Meu projeto de pesquisa precisa de pesquisa de campo. No seu campo, no meu campo, no campo neutro.

A minha promessa é um relatório constante do crescimento – natural e necessário – do que vulgarmente pode ser chamado de amor/querer bem/afeto extremo (ver sinonímia por extensão de sentido). Nesse caso, causa principal da presente hipótese de trabalho.

Por fim, você me perdoe que as minhas referências bibliográficas – que vão de Chico Buarque àquela banda de punk com nome de peixe que você gosta – não serão devidamente citadas. Minhas fontes vêm nas entrelinhas.

Os resultados, prezado, espero não os apresentar. Não agora. Não hoje, nem amanhã. Fico fora do prazo já que, assim do seu lado, não falamos mais de tempo. E a razão, aquela que me comove e que deveria ser a razão inicial desse detalhista trabalho: é que havia de ser.

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