Cartas d'ela.

Azzaro

livro

 

Você é o meu lado brega, como esse texto aqui: cheio de repetições, clichês e açúcares, que escorrem junto com a minha saudade, que de tão grande já não cabe no banco do carro pra correr até você e ser morta, bem devagarzinho, pelo seu sorriso. Ouvi dizer ontem que é a novidade que garante uma paixão. E, depois de todos esses dias tentando entender o que me prende a você dessa maneira, quase achei uma resposta viável. Você é minha novidade todos os dias.

Rapaz, você não está aqui e todos os meus sentidos me lembram disso. Sua falta é pior que fome na tpm: nunca passa, nunca acaba. Minha percepção de tempo ficou desvairada: ando contando as horas a partir do momento que você me deixou, e elas voltam a fazer alguns sentido mais perto de você voltar. Mas você nunca volta o mesmo.

Taí o seu grande segredo: você muda o tempo todo. Mesmo se a gente se separa alguns minutos, tenho a impressão que você volta outra pessoa. É a mesma boca linda, com o mesmo jeito de olhar pra mim de cima pra baixo, com as mesmas mão que me seguram exatamente no mesmo lugar da cintura; mas você é outro. Eu descubro e redescubro você, é há sempre novos caminhos. Meu gps não deu conta, e quando eu vi acabei completamente perdida, nesse universo inteiro que pode existir entre os seus olhos e aquela cicatriz que eu adoro (eu caberia ali dentro, sabia? de tanta coisa que ela tem pra me dizer). Você continua sendo novo assim pra mim: cheiroso igual um livro que a gente recém abre e enfia o nariz inteiro pra roubar aquele aroma bom de novidade. Melhor ainda do que amaciante em lençol recém trocado. Que bolo recém-saído do forno. Que grama recém-cortada. Que o café que você faz pra mim, com tanto carinho – por mim e pelo café. Todas as novidades têm cheiro bom e é por isso que eu gosto tanto de parar atrás de você, levantar um pouco na ponta do pé e encostar a ponta do meu nariz na sua nuca: e cheirar, até o meu pulmão se encher de você. Se eu pudesse, eu te tragaria.

Você  não percebe, mas é um descaso com o mundo: fica existindo como se fosse possível – e completamente normal – não me incomodar com defeito algum. Você tem, eu sei: é teimoso demais. Ainda bem. Fico me perguntando se alguma cabeça menos dura daria conta de uma loucura tão presente quanto a minha: eu não consigo nunca deixar para depois e o seu imediatismo me completa mais que sushi com shoyo; que papaya com cassis; que pão-de-queijo com nescau (ou toddy, tudo bem).

Vem aqui, rapaz. Deita comigo e fica. Hoje, e depois. E depois. Eu não quero nada pra sempre, não. Eu me contento com hoje. Um hoje novo todos os dias.

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