Cartas d'ela., Tra-lá-lá

Minhas Marias.

mulheres

“Maju”, eu chamei. “Você gosta que eu te chame de Maju?” – perguntei reparando a cara de insatisfação que aquele vocativo tinha produzido.”Eu prefiro Maria” – ela disse. Eu também: Maria é o meu nome favorito no mundo. Além de ser o nome da minha avó e duas amigas que eu amo muito, Maria sempre foi o nome da força pra mim, seja pela minha moral cristã, seja pelas Marias incríveis que eu encontrei por aí. Maria, então, aqui, vai ser o nome que vou dar a todas as minhas alunas que me inspiram, todos os dias, para continuar.

É preciso dizer que elas são lindas, lindíssimas. Elas passam pela sala de aula e não percebem (ou, às vezes, percebem) que o mundo vai mudando seu fluxo de existência. Elas enchem os meus olhos e, não adianta, eu sempre reparo nos detalhes que deixam cada uma ainda mais bonita: o lápis azul, o óculos retrô, o jeito de prender despretensiosamente o cabelo, os olhos verdes. Cada uma das minhas Marias tem um charme único. Mas não é isso que me põe a escrever nessa manhã fria de feriado: é o que elas me fazem sentir e como me motivam a continuar, independente de qualquer dor, qualquer mágoa.

Maria Fernanda gritou comigo. Mentira, gritou JUNTO a mim: eu não quero mais fazer um texto quadrado. Eu não quero escrever e ser julgada por esse tipo de texto: isso não diz a publicitária que eu serei. Não diz, é verdade, eu dividi o ódio dela. Imaginem, justo eu! Eu sempre odiei dissertação, mas…como eu sempre digo, a vida tem dessas. O que me admirou não foi a indignação pela indignação. Foi porque ela sentou ao meu lado e me pediu ajuda: ela sabe que está errado o sistema, mas ela sabe que precisa enfrentá-lo. Que mulher forte com 17 anos. Que bom é vê-la perceber, já agora, que o mundo tá todo errado mesmo.

Elas são fortes desde pequenas. No fundamental, elas já gritam sua energia para todos os cantos. Elas são infinitamente mais maduras. E sabem disso. E que Joana D’Arc permita que elas nunca se esqueçam.

Dias atrás dei uma aula sobre feminismo e violência contra mulher. Minhas Marias todas olhavam com um olhar misto de compreensão e revolta. Elas sabem o perigo que correm, mas também sabem que essas coisas estão ai para ser mudadas, medidas, discutidas. Uma delas saiu da minha aula chorando muito e eu me senti um monstro. Que ferida era aquela que eu tinha tocado sem nenhum tato?

Ela me contou, forte, a sua história. Um abuso dentro de casa. Um abuso sem a mínima chance de revolta. Ela era uma criança. No seu relato, ela era uma criança. Ali, me contando, ela era uma fortaleza inteira que segurava as dores de todas as mulheres desse mundo. Mulher é um trem danado de corajoso, mesmo. Foi essa Maria que me parou dia desses no corredor e perguntou como foi que eu descobri que queria ser professora, já que ela estava em dúvidas sobre que carreira seguir.

Eu não descobri. A sala de aula me aula me descobriu. Ainda bem, porque é dessas histórias que eu alimento minha alma. E dessas Marias, Dudas, Amandas, Fernandas, Heloísas, Sofias, Helenas, Beatrizes, Camilas, Anas e Paulas e tantas outras que eu continuo superando cada machismo que eu escuto, aqui e ali. É por elas, e porque eu as inspiro e elas me inspiram, que eu escolho cada roupa, cada batom. É por elas. Poderia ser pelos homens, poderia ser por vaidade, mas é por elas: é por elas que eu sou grossa às vezes: pra que o mundo saiba que mulheres sabem se defender. É por elas que eu dou respostas atravessadas: porque o mundo precisa saber que a gente sabe o que dizer e como dizer. É por elas que eu dou aula de cólica ou com tpm: porque eu sei que a gente aguenta.

Não seguimos o exemplo das mulheres de atenas. Mas da mulher da faxina, da secretária, da dona da multinacional. Seguimos o exemplo de quem vive, sabendo que isso é, inevitavelmente, uma luta.

É especialmente por vocês que vale a pena enfrentar uma sala dos professores (professores mesmo, porque praticamente só tem homem) logo após a rodada de futebol. É por vocês que eu escolho até a coruja que eu vou usar naquele dia. Porque eu sei que vocês reparam.

Um dia a gente vai se separar. Talvez a gente seja amiga e beba junto, talvez não, porque acontece. Talvez eu te veja na faculdade e você estar cada vez mais bonita e forte e, eu, mais orgulhosa. Talvez a gente se trombe e você não me reconheça mais. Mais eu sei que um pedaço de mim você levou: nem que sejam as batatas.

Marias, minhas alunas e professoras, vocês são as mulheres da minha vida.

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One thought on “Minhas Marias.

  1. Adriana diz:

    Lindooooo … como sempre! Por que é que nossas alunas marcam tanto a vida da gente? Você explicou aqui com maestria e delicadeza, pra variar … amei !!!

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