Cartas d'ela.

É que chovia.

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Eu tenho bons motivos para estar um pouco irritada: esse frio, essa tpm, essa dor de cabeça e o celular que pifou. Não que o meu humor esteja dos melhores – mesmo porque esse não é o meu forte – mas, ainda assim, ando sendo tão tolerável e tão tolerante que me esqueço daquele meu lado quase psicopata, meio ogro e bastante grosso. Enfim, era só um adendo.

Meu prólogo, no entanto, é para o resto mundo. É preciso introduzir para vocês (e em vocês, se me for permitido) uma história: sou dessas pessas bastante crentes na sabedoria popular. E, bem antes de eu saber o que significava crença, por volta dos meus dez anos, uma pessoa mais velha – e nitidamente incapaz de perceber o erro que cometeria – disse para mim, bem despretensiosamente: nunca beije na chuva ou você vai se prender a essa pessoa para o resto da sua vida. E eu, pasmem vocês, acreditei. Pior! Levei isso como crença por anos de minha vida.

Seria hilário o caso se não fossem ridículas as cenas em que (e acho que os rapazes nunca desconfiaram) eu fugia de beijos na chuva. “ai, tá frio, vamos sair daqui”; “ai, tá molhando”,  “ops, tá todo mundo vendo”. Acho que até a desculpa da chapinha eu usei. Justo eu, que mal sei manusear uma. Enfim, era isso. Eu acreditava nisso.

Volto a você, que é o meu amor. Contei isso no meio do mês de maio, quando quase não chovia e o nosso nariz estava ardente e espirrante com o tempo seco. Você achou graça e não me levou a sério. Aliás, acho que você nunca me leva totalmente a sério. O que é ótimo, considerando a quantidade de absurdos que eu sou capaz de dizer por hora. Achei que você tivesse esquecido.

Domingo choveu muito na estrada e você dirigiu. Ainda bem. Dei aquela dormida categórica no trecho mais insuportável da Anhanguera. Domingo chovia muito. Enquanto a minha taurinagem me impedia de conseguir abrir com destreza o porta mala e pagar as coisas do carona, você riu muito. E me beijou. Confesso que te achei maluco uns cinco minutos. E depois ignorei: amor enlouquece mesmo a gente, né? Vai saber. Você fica lindo gargalhando.

Daí que tinha duas caronas no carro. E dá-lhe nós, na chuva, tirando mais mala do porta-mala. Você continuava rindo e me beijando e eu já um pouco envergonhada: será que eu não entendi alguma piada óbvia?

Chovia, meu amor. Chovia. Fui eu que te abracei pela primeira vez. Fui eu quem te pediu em namoro. Fui eu quem dei a cara a tapa. Mas foi tua a ideia genial de me beijar na chuva. Acho que a declaração de amor (e de cumplicidade) mais bonita que eu já recebi. Eu não sei, até agora, se você ria porque eu não estava entendendo a cena ou porque dá um certo desespero pensar em passar o resto da vida com uma louca. Tanto faz. Se eu te fiz feliz naquele momento, é muito bom! Se aquilo era desespero, tudo bem também: se eu te fizer gargalhar o resto da vida vai dar tudo certo. Você tem um sorriso lindo, mesmo.

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