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Não confio.

Não confio em gente que não come chocolate. Não confio em gente que não toma cerveja. Não confio em gente que não fica meio desnorteado com cheiro de bacon. Não confio em quem não gosta de sexo. Não confio, não adianta. Até confio quando é vegetariano bem resolvido – e sem militância fundamentalista – ou se, por acaso, se incomoda com o gosto do cacau, mas tudo junto, assim misturado: não confio. Porque os prazeres da vida – de café a beijo na boca – existem. E eu não confio em que não os desfruta. Não brinco de fazer apologia à vida desregrada e nem culpo quem não pode tomar aquela cerveja porque dá aula no dia seguinte – afinal, estou no time. Eu estou falando das pessoas que podem, mas optam por não sentir prazer. Sim, essas pessoas existem. Sim, essas pessoas são superestimadas por uma cultura que adora cultuar a vitimização: “nossa, fulaninha não toma cerveja para não ficar inchada”; “Chocolate não, dá espinha”; “café mancha o dente” entre tantos outros prazeres sucumbidos em prol de sermos impecavelmente lindos, perfeitos, esforçados.  Coisa chata que é ser exemplo. De qualquer coisa. A palavra modelo me dá arrepias, seja em qualquer acepção possível. Ok, posso concordar que grande parte do desejo estético da beleza a qualquer custo cause prazer. Bancar o correto vegetariano, mesmo se você venera picanha, pode parecer altruísta. Mas eu me pergunto até que ponto tem poesia em jogar pro canto o tesão e o prazer em prol de, simplesmente, ser aquilo que acreditaram que você devia ser. Isso vira um ciclo eterno.  Parece idiota achar estranho a pessoa que faz “spinning” porque PRECISA. Zero prazer. Nem que seja o prazer de suar em bicas, é preciso prazer.  E preciso sair da linha e desvirtuar as próprias regras.  Senão, dessas pessoas essencialmente corretas e rotineiras saem os profissionais frustrados, os pais sem paciência; além da terapia, dos antidepressivos em massa. Da cara de merda em pleno sábado de sol. Aliás, quantas pessoas você conhece que não se masturbam? E mulheres – digo mulheres porque nunca ouvi relatos masculinos, mas devem existir – que transam por obrigação? Até quando? Até quando as pessoas não vão sentar confortavelmente no chão porque suja a roupa?  Até quando vamos cultuar uma espécie de pedagogia do sacrifício nas pequenas coisas? Eu canso de trabalhar, todo mundo cansa. Vai dar dez aulas num dia, passar 12 horas num escritório, ou fazer 9 pés e 10 mãos num salão: cansa, porque trabalhar cansa. E já que vivemos disso e ninguém aqui mudou para uma comunidade alternativa distante da modernidade, até quando vamos pregar o sermão do “sou melhor que você porque me sacrifico por algo?”. Eu me sustento. Eu não me sacrifico acima do que me anima. Eu xingo, se precisar. Eu grito, se precisar. Eu não banco a educada para agradar o infeliz da esquina. Ou banco, se isso me der prazer ou algo de útil. Eu gozo. Eu não confio em quem não vive. Não confio em quem não gosta de chocolate ou não toma nenhum tipo de cafeína – nem que seja o politicamente correto chá mate. Não adianta.

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