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Dorme-se triste

Dorme-se triste quando há briga. Quando há desentendimento. Dorme-se triste quando não se deseja uma boa noite; ou até se deseja, mas é sabido que a noite, ali, naquela briga, boa não há de ser. Dorme-se triste quando o sono lembra uma ausência. Não de um minuto, não do dia inteiro, mas daquele momento em que se precisa, mas se consegue, ser ouvido, nem entendido. Não se pode confiar em alguém que não está ali quando você realmente não queria estar sozinho. Dorme-se triste quando respostas evasivas completam perguntas sinceras, cheias de um desespero típico de quem, insone, pensa na dificuldade do não dormir e do não querer acordar. Dorme-se triste quando uma preguiça que nos faz espreguiçar esticando o corpo todo na cama é substituída por uma raiva que contrai os músculos e espanta a sonolência à tapa. Um tapa sempre bem dado pela negligência do outro, que descombina com a nossa carência de pré-sono, de pré-sonho, de pré-saudade. Quem dorme mal mata a vida, mata a saudade, mata a vontade. Quem dorme triste, não acorda, só levanta, partindo pra vida como se fosse um combate… O fato é sabido: dorme-se triste porque se dorme sozinho. Completamente incompleto. Antes só do que mal acompanhado. Mas quem dorme sozinho acaba dormindo rodeado de uma tristeza companheira. Com ela, dorme-se triste. Acorda-se contrariado.

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