Uncategorized

A criança que eu fui.

miró

A criança que eu fui era muito segura, muito acalentada, teve pais incríveis e uma educação que lhe permitia olhar para o espelho e pensar que aquela imagem correspondia exatamente àquilo que se concebia por “eu”. A criança que eu fui não tinha medo de comer nada diferente, mas chorava quando tinha temor da altura. A criança que eu fui tinha um irmão que, vendo aquele choro, buscava-a com um abraço, que tinha forma de salvação. E o choro virava uma briguinha qualquer, só porque a criança que eu fui nunca admitia ter medo. Odiava a mula sem cabeça e amava o cabeludo japonês do desenho animado. A criança que eu fui era esperta e se gabava disso. Temia quando alguém lhe dissesse “menina inteligente não faz isso, não”. A criança que eu fui sabia exatamente o que iria ser quando crescer: uma mulher forte, uma Joana D’Arc, que enfretaria todos os problemas porque era realmente uma muralha. Uma mulher a ser admirada. A criança que eu fui, acima de tudo, não perdia a esperança por nada. Fazia mil promessas pra São Longuinho e sabia que, no final, ela tinha sido agraciada. Se o desejo não se realizava, a memória era tão volúvel que se perdia e fazia com que a pobre pedinte ficasse em dúvida se aquilo que aconteceu era mesmo o que ela tinha pedido. Andei fazendo pedidos pra São Longuinho, pra Zeus, pra Joana D’Arc ou qualquer entidade que pudesse me trazer força. Penso na criança que eu fui e acho que ela se constrangeria um pouco se eu lhe dissesse que está é a mulher que ela um dia vai ser. Ela ia sorrir com cara de satisfação quando eu contasse “sou professora”. Afinal, a criança, aquela marrentinha descabelada de aparelho e óculos, já nasceu assim, querendo ensinar e aprender o tempo todo. Ela se irritaria se eu dissesse que o temperamente difícil e a teimosia não melhorariam com a idade. Daria de ombros quando eu lhe contasse que o medo de altura não melhora, mas que o irmão, esse sim, continuaria salvando dos problemas, como um herói de ficção que, desde criança até hoje, tem sido seu gênero literário favorito. Olha, criança, às vezes eu vou te decepcionar. Às vezes meu lado Pagu se esvai e eu fraquejo. E eu choro. Trombo com mulas-sem-cabeça por aí e não consigo reagir. Sabe que a falta de cabeça alheia ainda me assusta muito? Continuo comendo de tudo, mas agora às vezes perco o apetite. Nessas épocas, vez ou outra, olho no espelho e não estou tão certa se aquilo que reflete é o que eu chamo de eu. Daí eu lembro de você, pequena briguenta e sempre respondona – não culpo seus pais, eles realmente tentaram te educar. Olho pra mim e vejo você. Bagunço o cabelo, como a gente sempre fez, passo o batom vermelho que cultivo desde novinha e lembro que eu não cresci nesse mundo pra te decepcionar. Nem a mim. Mas para sermos, você criança e eu uma quase mulher, irremediavelmente felizes. Busca lá o livro, que eu ainda tô contando a nossa história.

Anúncios
Standard

One thought on “A criança que eu fui.

  1. Yvete Flavio da Costa diz:

    Marcella, você escreve fácil, limpo, claro, direto, o leitor visualiza o agir, o movimento da personagem. Gostei muito, lí várias vezes, por achar muito bonito o texto, que delicadeza! Parabéns.Adorei o São Longuinho….. lindo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s