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A garota Romero Britto

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Tem coisa esquisita que faz sucesso por aí. Romero Britto é uma delas. Eu poderia passar por alguns conceitos estéticos para justificar as razões pelas quais eu não considero o trabalho de Romero Britto verdadeiramente artístico, mas não o farei porque tem pessoas mais competentes no mundo para fazer isso; também porque já gastei toda minha capacidade estética numa aula sobre Kant sexta-feira. Considerando isso, o que eu estou querendo nesse sábado quente em que meus alunos queridos estão fazendo ENEM? Eu tô querendo falar de uma casta de pessoas que estão se reproduzindo vertiginosamente por aí. E que são especialmente cômicas. Não, elas, em geral, não fazem mal a ninguém e já foram rotuladas por diferentes pessoas com derivações variadas. A minha preferida é a alcunha de “coxinha”, que, a bem da verdade, é injusta, porque coxinha é gostosa e muito roots. Mas ok. Tenho visto por aí muita garota Romero Britto. Não que elas em si me incomodem, eu sinceramente acredito que cada um gosta do que quer e tem pleno direito de expôr isso ao mundo: sejam os colares de bigode (de gente que nem curte bigode, alô, incoerência); passando pelos cadernos caríssimos do Pequeno Príncipe (que, vamos combinar, era quase um socialista, né?), até chegar nas inúmeras e múltiplas coisas do Romero Britto. E bota múltiplas nisso: roupa, sapato, bolsa, caderno, caneta, malas, caixinha de perfume, de fósforo. Sinceramente? Deve ter camisinha Romero Britto e gente gozando multicoloridamente por ai, só pode.

Repito: nada contra isso, cada um usa o que quer, por mais esquisito que me pareça. A questão, na realidade (e é bom ser didática para aqueles da patrulha-da-loucura-politicamente-correta) é a metáfora. Sabe quando O Gabriel- delícia- me -pega – O- Pensador lançou “loira burra”? Então, não falávamos de loira, falávamos de um comportamento específico.

Falemos então da Garota Romero Britto: ela pode ser ou não bonita, mas ela não cansa de usar maquiagem. Tudo bem a questão estética, tudo bem você considerar passar o fds no shopping um programa interessante, romântico ou minimamente válido. Mas a Garota Romero Britto não para por ai. Ela me pergunta, em sala de aula, onde foi que eu comprei o meu vestido e sorri ironicamente quando eu digo, em alto e bom som “Zepa. Zé Paulino”. A garota Romero Britto faz questão de me perguntar como é que eu faço para achar calça, já que as marcas boas só fazem até 42. É, garota, eu uso 46, paciência. A Garota Romero Britto tira foto suada, cansada, mas sorridente, afinal, ela foi na academia e teve força, foco e fé para fazer o que todo mundo já faz desde o que mundo é mundo: movimentar-se. #nopainnogain, dado que todo o sofrimento se concentrou ali, naqueles minutos de adrenalina concentrada. Fico pensando: quem precisa de fé para andar na esteira? sei não, estão sendo literais demais quando cantam andar com fé eu vou que a fé não costuma faiar. A Garota Romero Britto compartilha frases do Caio Fernando Abreu, mas nem lembra – ou nunca soube – que este homossexual é tão homossexual quanto aquele que ela insiste em menosprezar no cursinho. A Garota Romero Britto come produto orgânico pelo triplo do preço, mas nunca entregou o pedaço que sobrou da comida que ela não acaba de comer (é muito carboidrato), para a pessoa da esquina, que precisa. Ele era invisível. Já disse que eu não gosto de incoerência? Pois é. A garota Romero Britto ignora o que é machismo, ignora o que é feminismo, é homofóbica, gordofóbica e acha que gente feia sofre. Garota Romero Britto, Bolsa Família não é dar moleza. Quem dá moleza é você, para o seu cérebro. Meritocracia não funciona sozinha, só no seu neurônio, que disputa com o outro quem vai ficar de folga no final-de-semana, enquanto você toma um caipisaquê de frutas vermelhas sem açúcar. Garota, você que vê tantas cores pelo mundo de Britto, como pode deixar o mundo – que é tão colorido – passar invisível por você?

nota da autora: você pode gostar de Romero Britto e não ser um idiota. Reitero que só foi uma metáfora acompanhada de uma visão recorrente entre a arte de Britto e o pensamento mediano. Calma lá, patrulha da loucura. Lembrem-se: quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto.

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