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Gabriel, você nunca me respondeu

Prezado Gabriel.

Eu tive alguns amores platônicos nessa vida, mas nenhum deles se comparava a você. Lembro bem quando meu pai comprou “O quebra-cabeça” para por no toca disco do carro novo. Tinha um moço lindo na capa. Descobri, aos 11 anos de idade, que eu gostava de moços barbudos. Talvez seja um traço edipiano, mas eu prefiro achar que é só bom gosto. Gabriel, o pensador. Achava aquele epíteto perfeito, afinal, nunca tinha ouvido coisas que faziam tanto sentido. Obviamente que, aos 11 anos de uma batataense nerd, o ‘acende, puxa, prende e passa´parecia só mais uma rima. Ah, mas quando tocava ” pra onde vaaaaaaaaaaaaai o sol….” ai eu chorava. E acho que nem sabia por que. Tipo o vídeo do bebezinho que vocês acharam tão fofo. Eu fiz a conta. Você  nascido 74 e eu em 89, quando eu tivesse 20 anos, você teria 35; e poderia haver proporção mais adequada para um amor tão sincero? Por que você não me respondeu, Gabriel?

Você não me respondeu porque cartas não têm sido mais respondidas, mesmo. O valor do papel do impresso ainda é tão grande pra mim. Meu namorado nunca me escreveu nada impresso, só com essas letrinhas babacas do computador. Eu o perdoo, Gabriel, você não perdoaria? Nesse mundo, vagabundo, que você – pra sua sorte ou azar -conhece tão bem, ah, nesse mundo ninguém tem tempo pra nada. Nem pra ouvir de novo Festa da Música Tupiniquim e perceber que suas referências são absolutamente geniais. Imaginei por todos esses anos a Ângela Ro Ro querendo te dar porrada. Sabe, Gabriel, eu tô escrevendo essa nova carta no meu blog e você nem é mais o meu grande amor. Eu tive outros amores, reais e platônicos, e acho que agora achei um desses que a gente fica velho junto. Só que eu não te esqueci, viu? É que, de repente, eu ja tenho 24 e você quase 40 anos, e 40 anos é muita coisa. Brincadeira, tá? Os cabelos brancos te deram um charme.

Eu tinha o seu pôster no meu quarto, sabe? Adorava essa foto aqui.

Imagem

Sempre achei essa calça um charme e te juro que já dei até um beijo num rapaz porque ele tinha uma parecida. Você deve estar achando que eu sou louca, né? É que eu sou mesmo.

Sobre o ENEM, acho a sua música genial, mas a questão nem tanto. A educação, nem tanto. Tenho alunos brilhantes e eu falo de você pra eles. Espero que fique a imagem que eu deixo, e não a do ENEM. Eu te garanto, Gabriel, eu faço uma ótima imagem de você.

Sinceramente, não espero resposta para essa carta. Eu sei que você tá ocupado e eu também, sabe como é, época de vestibular dificulta a vida da professora de cursinho. Na primeira carta, aos 11, eu te escrevi um rap que fiz pra você. Agora, te desejo sorte, que esse mundo tá precisando de muito rap para ser consertado. Eu sei que nosso poder é pequeno. Mas enquanto você escreve e canta; eu escrevo e leciono. E quem sabe assim vai ficando menos saco de pancada.

Boa sorte com o cd novo. Devo estar na sua próxima turnê, abraçada num moço tão gato quando você.

Beijos saudosos,

Marcella de 11 e de 24 anos.

nota da autora: alunos, isso ai é o que eu chamo de construção da imagem do interlocutor.

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