Vem, mas vem sem fantasia…

Ouvia essa música e sempre lembrava dele. Era dele. Sempre aquele jeito de menino medroso, mas era um puta homem. Ela se reconhecia melhor com ele. Que saudade que sentia. Reconhecer-se em alguma coisa é sempre algo dúbio: entre o patético e o egocêntrico. Um dia lhe falaram que ela parecia uma atriz da tevê. Ela achou legal, e se pegava, quando o pensamento se perdia sozinho, pensando se fazia sentido ou não e comparando fotos. Fazia um jogo de caras e bocas tentando imitá-la e trabalha numa falsa modéstia que surpreendia a ela mesma: “pareço nada”, dizia pro espelho. E sentia a própria atriz.

Aliás, ela mesma já tinha pensado em ser atriz. Desde bem pequena, descobriu que levava jeito para mentiras. Tanto para contá-las, quanto para acreditar nelas. Que fardo é essa intimidade com a mentira! Pobre menina. Fazia muito tempo que aprendera que a fantasia, aquela da literatura, pega mal na vida real. Especialmente quando vestida por uma mulher.

Já viram uma criança de fantasia fora de contexto? Não é carnaval, nem dia das bruxas, nem festa à fantasia. É um domingo de parque, plena luz da tarde; é no restaurante italiano no dia de comer nhoque; na fila do banco; de mão dada para atravessar a rua; em casa. Criança gosta de usar fantasia a qualquer momento, e mal se apercebe da sua diferença de vestuário para com os demais presentes: adulto não é gente, mesmo.

Ela era um pouco essa criança. Não vestia fantasias propriamente ditas, mas era como se estivesse envolta numa. Não sabia mais se era ela, ou era fantasia. Tava vestida de que, hein? Porque é que, de repente, ela não era mais a moça que parecia a atriz da tevê.

Ela olha praquele menino vestido de Batman ali. Ele não salva Gotham, ele salva o mundo todo. Sem arma, sem batmóvel: só com a capacidade de ignorar o resto das pessoas. E tem a princesinha. Sempre tem uma princesinha perdida por aí, pisando com o sapato de velcro e cristal na imundície do mundo. E ela não se suja. Criança nunca se suja, porque tem a alma toda lavada. Ela não.

Tem um remorso que pesa mais que coroa e uma saudade que não passa com varinha. Mas ela segue de fantasia.

Mas às vezes, só às vezes, fica tudo meio patético. Às vezes tem risada, às vezes tem tristeza, às vezes tem cansaço.

E a fantasia some. Sobra só um monte de adultos: e o almoço de domingo, o nhoque, o parque. (e a saudade, que é mais cruel que abóbora à meia-noite). Sobrou ela…
Sem fantasia.

que da noite pro dia você não vai crescer…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s