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Parabéns, mulher.

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meus alunos me parabenizaram. eu agradeci imensamente, sem ter certeza do que estava acontecendo. dei uma boa aula? Sorri quando devia? Que foi que eu te disse?

Era 8 de março. Parabéns, mulher. Pelo que, mesmo? eu não escolhi nascer xx. não que eu me lembre (sei lá se alguém se lembra da sua vida embrionária). provavelmente, eu deveria ser um zigoto esperto, e se me dissessem que eu cairia nesse mundo eu teria optado ser homem. e branco. e bem heterossexual. Que é pra não ter problema, mesmo. Mas eu errei no sexo. só consegui ser branca e (até agora) heterossexual.

Mas voltemos: Parabéns, mulher.

Vem cá, e me diz: por quê? por que eu aguentei a falta de educação do seu pai, do seu irmão, do seu namorado e do seu primo quando eu passei na rua e me esqueci que o meu corpo, sendo meu, é também de todo mundo que o olha e o deseja, seja em que instância for? ou será que é porque, num momento de distração, eu não me percebi que a minha voz, quando diz a mesma coisa que ele diz, incomoda. fosse ela fina, fosse ela grave: sempre incomodaria. porque é a voz de uma mulher e a impressão que me da é que ela carrega um eco surdo que não repete o que foi dito, mas o discurso de um patriarcado velho demais para ser combatido. é o velho combatente de guerra, que, ainda que fraco, sustenta e rege uma família (e uma sociedade) inteira. Podre por dentro, mas impecável em seu discurso.

velho, mas vivo. a morte desse pensamento me parece tão distante que eu não te convido a esperar pelo fim. Eu te convido a ser doença, peste, vírus desse pensamento. eu te convido a ser veneno, a ser problema para esse pensamento. eu te convido a matar, com requintes de tortura, essa ideia. e por mais vis que pudéssemos ser, eu te garanto: o soro que sustenta vivo esse velho pensamento é constantemente renovado. por você, que me deu um chocolate no “meu dia”, mas esperava mais doçura da professora de redação, afinal, “ela é mulher” e a sinceridade não pega bem pra uma dama. Verdades ficam mais aguentáveis ditas por homem? Elas passam pelo pênis e ninguém me avisou?

eu não espero sua rosa.  e olha: o que eu espero não é que você me entenda, porque isso é impossível. eu espero só que você saiba que eu não posso me sentir contemplada pelo seu parabéns enquanto eu for minoria no corpo docente de um colégio. Enquanto minha inteligência for calculada numa razão inversamente proporcional ao tamanho da minha saia. enquanto eu for culpada por cada estupro – em qualquer dimensão- que eu sofra. enquanto eu tiver minha competência posta a prova por usar batom, e salto. enquanto for um absurdo eu falar, e gostar e fazer sexo. enquanto eu tiver que ter medo de andar sozinha na rua.

Até lá, eu não quero os parabéns: eu aguardo as suas desculpas.

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3 thoughts on “Parabéns, mulher.

  1. Vitor diz:

    Marcella, só um adendo: cuidado com a associação de mulher ao cromosssomo xx, pois acaba deslegitimizando as pessoas trans como mulheres. Ser xx pode não necessariamente te fazer mulher.

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