Cartas d'ela.

Páscoa.

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Acho que todo ser humano precisa se sentir novo. A gente corta o cabelo, faz uma tatuagem, revê a sexualidade, repensa o gênero, muda de apelido, de rede social, de emprego, de estilo de vida: cada um muda de um jeito, mas, em geral, a gente muda. E quem não muda, costuma sofrer: porque ter que lidar a vida inteira com a mesma pessoa – cheia dos mesmos defeitos e das mesmas qualidades – não é tarefa fácil.

Ocasiões como ano novo, páscoa e aniversários são ótimas ocasiões para rever as mudanças que fazemos (e as que apenas listamos) por aí. Pela gente. E pelo mundo.

De todas essas datas – que eu acho maravilhosas – a Páscoa, faz pouco, tem um significado diferente pra mim.

Chocolate não é meu forte, se tivesse alguma festa comemorativa em que eu pudesse ganhar pamonhas, talvez a minha ansiedade fosse maior. Detalhes materialistas à parte, gosto do significado espiritual – independente de dogmas religiosos – que a data carrega.

Então é hora de renovar. A diferença fundamental é que vejo essa renovação com um vetor diferente. Ela vem totalmente de dentro da gente e independe de uma mudança no ambiente. Não podemos ser passivos. A gente re-nova, porque nos faz sentido ser novo, mas esse novo vem do velho e incansável hábito de sermos nós mesmos. Explico; é preciso ser muito a gente para poder ser diferente. É preciso ter esgotado o que há de mais de mim em mim antes de renovar. Senão não é mudança, é só adaptação.

Enfim.

Páscoa passada foi dureza. Eu tinha acabado de conhecer um cara interessante, mas totalmente errado pra mim. Totalmente, mesmo: ambiente errado, fora daquilo que eu julgava meus padrões, e no momento em que eu, recente de um término dolorido, só queria saber de ficar muito sozinha. E eu resisti (ou fingi que resisti) a essa paixão: eu tinha todos os motivos para não ficar com ele. E, porque a vida é irônica e cheia de piada sem graça, ela me retribuiu um milhão de motivos para eu fazer exatamente o oposto.

sexta-feira da paixão de 2013: eu estraçalhei meu carro. Sai toda machucada e olhei o carro da frente. A moça sorriu e me disse “você nasceu de novo, menina. Você realmente viveu a Páscoa”. Eu nunca mais vou esquecer disso. Ainda mais que isso, eu não vou esquecer que o primeiro número que disquei foi o dele. Foi pra dizer “quase morri, mas to bem”, que significou “eu não quero morrer, porque tenho você”.

E eu não queria morrer. Por todas as razões que alguém pode elencar para chamar de felicidade, ele passou a ser uma delas. E eu, por ser sortuda, tenho muitas.

De lá da Anhanguera eu levei algumas cicatrizes, uma costela que consertou meio torta, nenhum trauma de dirigir e muita vontade de ver meus pais e meu irmão. Junto comigo, ia, também, um ovo de chocolate cheio de gasolina que eu ganhei dele e a certeza de que, nessa vida louca, não há no mundo quem consiga resistir à força das mudanças. Elas sobem pela gente e a gente disca o número de telefone novo, para falar de maneira nova, com uma pessoa nova. Mesmo que sejamos as mesmas velhas carcaças de sempre.

Não espero que ninguém bata o carro e quase morra para saber assumir que muitas mudanças vêm, inevitavelmente – para o bem ou para mal. Nem vale a pena tentar fugir. Às vezes, mesmo num texto com tão pouca unidade como esse, é preciso se ater aos exemplos coerentes. Falávamos em Páscoa: lembremos de Jesus, é inevitável. Ele só causou uma baita mudança porque era, em si, a mudança.

Então, tranquilize-se. Você não é passivo às mudanças de sua vida, mas será avisado quando elas chegarem. Mesmo porque não há mudança que não chegue fazendo alarde e lembrando que, para o nosso bem, elas são numerosas e inevitáveis. Boa mudança para você, também. Feliz Páscoa.

ps: a foto é da Anhaguera. Foi tirada com ele.

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