Cartas d'ela.

miró
Queria que você estivesse aqui.

Reiterava essa frase, como se acreditasse infantilmente na mágica do desejo. Palavra tinha poder, ouviu dizer. Chove muito lá fora. Queria que você estivesse aqui, a chuva, melancólica, ficaria, em um segundo, facilmente doce. O barulho irritante da televisão seria melodia. A preguiça cheia de culpa viraria um ócio absolutamente criativo: não se importaria mais! Nem com contas, nem com o que falta, menos ainda com o que sobra. Queria que você estivesse aqui. A luz lá fora é fraca demais, olho e não vejo absolutamente nada do que procuro; a luz lá fora é forte demais, olho e vejo absolutamente tudo que eu não queria ver. Há, em toda distância, uma segunda distância, para além do corpo. No começo, é saudade. Depois, ausência. Por fim, e se a gente se esquecer? É que é preciso se lembrar. Fazer a brincadeira de criança de lembrar porque foi que eu lembrei. Luz lá fora, chuva, saudade, cheiro de fruta. Não. É que de repente doeu porque algo fazia falta, mas é que às vezes faz tanto tempo que já foi, mas é que às vezes dias são imensidões de ausências e aí: ai, dói. E o nosso corpo até se esquece da dor, mas a cabeça nunca esquece das consequências da dor. O corpo até aguentaria sangrar tudo de novo, mas a cabeça não deixa. Essa chuva tá forte demais, hoje. Ah! Parabéns! Eu te parabenizo por mais uma conquista, mais um ano que se inicia. Parabéns: você se foi efetivamente por ai. Saudade não cabe mais entre a gente, porque saudade a gente pensa em matar. Mas como é que a gente mata o que já não vive? Matando o que foi deixado para trás. Queria que você estivesse aqui, dando um pouco mais de sentido a essa chuva. Mas que coisa, não para de chover e eu queria sair por ai correndo. Mas que sentido tem correr da chuva na chuva? O mesmo sentido que tem tentar esquecer: para tentar esquecer, meu amigo, antes foi preciso se lembrar. Não posso, então, nem correr da chuva, nem te esquecer. Tô nessa prisão, aqui. Aqui não se vai, por aqui não se fica; e você foi, ao que tudo indica.
A chuva não.

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