Tra-lá-lá

Manuel de sobrevivência do casal feliz OU de como a xuxa também caga.

“A Xuxa também caga” é uma pichação que tem num muro bem perto de onde eu moro. Ela já está lá há pelo menos 8 anos, mas sempre me encanta pela sua genialidade. Talvez ela não toque tanto os adolescentes atuais que veem a Xuxa com um olhar mais defasado, mas aplique isso à Sasha, a Gabriela Pugliese, ou qualquer bloggueira da moda e você terá o mesmo efeito: é preciso lembrar que no fim, como diria o protagonista do filme “Eu sei que vou te amar”(1989): somos todos tubos processadores de merda.
A função dessa lembrança é simples: se a Sandy caga (dessa até eu duvido, mas é uma mácula de quem cresceu nos anos 90) é porque ela tem muitos outros defeitos os quais desconhecemos.
Eu sei o quão óbvio isso parece, mas o crescimento das redes sociais tornou inatingíveis pessoas que nos deveriam parecer próximas e reais.
E, sinceramente, eu não me importo tanto com esse crescimento absurdo da mentira deslavada. Todo mundo sabe que é mentira que a Xuxa usa Monange e que as bloggueiras “comem de tudo” porque “tem metabolismo acelerado naturalmente”. Todo mundo sabe que as panicats não ganharam tantos músculos com batata doce. Todo mundo sabe. E esse tipo de mentira nem me incomoda tanto, ela beira o pitoresco e me diverte.

Xuxa-Monange

Certeza que a Xuxa esquece de passar hidratante depois do banho, às vezes.

O problema é o que eu vejo acontecer especialmente em relação à ideia de felicidade.
Vejam só: eu sou gordinha, totalmente fora do padrão estético, não sou famosa e tudo que eu tenho de “público” são os meus alunos – cerca de 400 por ano. Considerando que metade deles me detesta, isso reduz consideravelmente minha “””””influência””””” e, mesmo assim, minhas alunas, especialmente as mais novas, idolatram alguma atitude minha, foto, viagem etc como se fosse o ápice da felicidade.
Eu acho bonitinho. O problema é que eu adoro essas meninas e vejo nelas um sofrimento que não deveria estar ali.
‘Ai, professora sua pele é perfeita’. E eu respondo sempre ‘Eu tenho 25 anos e você 14. Ninguém tem a pele perfeita aos 14 anos’
‘Ai, professora, queria saber tanto de X – qualquer assunto que as interesse – quanto você”
‘eu tenho 25 anos e você 16, é natural que eu entenda mais disso’
‘Ai, professora, queria me sentir segura como você’
‘Eu já me ferrei uma adolescência inteira até me sentir segura. Logo você descobre como fazer isso’

‘Ai, professora. Você e seu namorado parecem de conto-de-fadas’

DSC05679

Eu e meu namorado perfeito numa foto perfeita na viagem perfeita. Eu tive a maior dor de barriga da história nesse dia.

E isso são alguns pouquíssimos exemplos. E isso prolonga o sofrimento. E não se reduz às adolescentes.
Quando vemos famosos fantasiados de casais perfeitos já nos sentimos socialmente pressionados a ser um casal perfeito. Pior: hoje em dia, qualquer subcelebridade sustenta a imagem de amor perfeito e violenta os sonhos de cada casal que se forma por ai.
A lógica é simples e já foi denunciada por muitos, bem antes de mim: eu seleciono o que te mostro, porque você não tem acesso a minha vida completa. E pronto. O que eu te mostro é um mundo de felicidade que você não vive. E veja: nem acho que esses perfis que revelam a vida perfeita dos casais perfeitos no mundo perfeito devam ser abolidos e crucificados. Eles estarão ali sempre, de uma maneira ou de outra – antes do instagram, já tinham as revistas, e os contos e as pinturas rupestres de casais perfeitos. Lembrando que: heterossexuais, brancos e magros. Que senão a inveja fica pela metade.
Enfim, eu só acho muito violento que vocês insistam em reproduzir uma lógica cruel e inatingível dessa em casa. “Amor, o namorado da Maricotinha cozinha comidas saudáveis para ela todos os dias, olha as fotos. E você trazendo pizza pra mim…” Eu ouvi esse comentário por ai. Olhei bem pra cara do rapaz, que tinha trabalhado o dia inteiro e pensei que crueldade era aquele pedido.
Daí eu me lembrei que podia sair dele o desejo de que a namorada fosse sempre linda, cheirosa e bem vestida. E que ela não reclamasse. E que ela fosse assim e assado, como a tal Maricotinha. Reproduzindo a lógica machista disfarçada de vida saudável e feliz.
Acontece que os casais perfeitos discutem, se irritam. Ninguém tem borboletas no estômago o tempo todo – a não ser que seja diarreia..

Ninguém não briga. Ninguém sorri o tempo todo. A Xuxa também tinha – acho que não mais – tpm. O George Clooney também não quer transar toda noite. A Natalie Portman não discute só assuntos interessantes o tempo todo. O anel de noivado da Lady Gaga é lindo, mas ela também já brigou com o noivo pelo canal da televisão.
E acima de tudo, é preciso lembrar que todos eles cagam: inclusive no relacionamento, tratando mal aqueles que amam. Porque somos naturalmente errados. É porque isso é normal.
Não tenha tanto medo de ser normal. Aliás, é uma delícia ser normal.

ps: fuja de textos que te digam como é a mulher perfeita e o homem perfeito. Acontece que cada um gosta de um jeito. Eu juro.

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2 thoughts on “Manuel de sobrevivência do casal feliz OU de como a xuxa também caga.

  1. Felipe diz:

    Excelente texto Má! É aquela velha discussão sobre estereótipos, e parece que mesmo sabendo de como somos “bombardeados” pelas imagens de pessoas e vidas perfeitas, a dificuldade de transpor essa barreira à aceitação continua, parecendo ser uma luz bem distante no fim desse túnel…
    Como sempre, um grande fã e eterno aluno seu 😉

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