Queridos.

Vocês são tão novos. Eu sei que soa meio ridículo dizer isso tendo pouco mais de 5 ou 6 anos que vocês. Ainda assim: vocês são tão novos. E isso não é nenhum tipo de ofensa, pelo contrário: vocês são novos e tão pouco calejados por algumas coisas que estão absolutamente erradas nesse mundo. Eu também ainda vou levar bofetadas e socos até dizer chega – e levantar de todas elas, porque é assim tem que ser – mas o pouco de história que minhas bolhas no pé e minhas cicatrizes me contam, eu faço questão de contar para vocês. Não que eu possa curar alguma dor. Ninguém pode (e esperar que alguém faça, é ingenuidade e comodismo), mas eu posso oferecer meu ombro, e lembrar que vocês não estão sozinhos.

Talvez seja a primeira vez que vocês estão se sentido responsáveis de si. Quero dizer: nunca a pressão foi tão evidente como fator de sobrevivência no mundo. E vocês estão sendo postos em situação de competitividade e comparação.

A competitividade tem tudo a ver com consumo – e acho que esse tema já deu, né? – e todo mundo enxerga qual é a violência inerente do competidor: para que eu ganhe, alguém necessariamente precisa perder.

No entanto, tão ou mais vil que competir é comparar. E digo que pode ser infinitamente mais cruel porque a comparação vem encoberta pelo véu falso e grotesco do estímulo. Vejam bem, não sou nenhuma tonta que acha que NUNCA podemos comparar nada, mesmo porque alguns aprendizados vêm por analogia, e a experiência do outro é fundamental para que eu entenda a mim mesmo. Aceito comparação. Digo: hoje, eu aceito comparações.

Por muito tempo, eu odiei. Sou a irmã mais nova de um rapaz que é absolutamente genial, fora do comum, sabem? E eu sempre fui ‘a-irmã-mais-nova’. Para os professores, eu nem tinha nome, mesmo. Para alguns, eu era boa de antemão porque era irmã dele; para outros, eu nunca seria boa o suficiente, justamente porque era irmã dele. E mesmo que ele próprio rejeitasse todo tipo de comparação, e fizesse de tudo para eu ser eu mesma, o mundo não o fazia.

E por quê?

Porque é sempre mais fácil.

É esse o segredo: quando comparamos – e isso é inclusive uma estrutura argumentativa didática– economizamos experiência e facilitamos a coisa para o nosso próprio cérebro: “Ah sim, esta sala é pior que a outra, logo funcionará da maneira y”. Muito bem, parabéns. Uma sinapse foi economizada. E um dia, talvez, destruído.

Não viveremos sem comparação – especialmente porque não vivemos sem paradigmas, mas isso eu explico outro dia – mas eu quero lembrá-lo de uma coisa.

O texto que agora eu escrevo a vocês não é o texto que daqui cinco minutos você lerá. A Marcella que acaba de abraçá-los (ou gritar loucamente) não é a mesma que está tomando café amanhã, ao lado da sala. Nada é a mesma coisa duas vocês.

Um escritor que eu gosto muito, e que vamos ler muito juntos, Jorge Luis Borges, sempre me avisou que um homem é um homem e suas circunstâncias. E as circunstâncias mudam todos os dias, fazendo com que os homens também mudem, ainda que permaneçam sendo os mesmos homens de antes.

Se tudo pareceu confuso e filosófico demais, lembra que: você não é igual nem a você mesmo de 1 segundo atrás, por que precisaria ser igual a outra pessoa?

Não precisa, não.

Até porque o meu sorriso será sempre um novo sorriso para esse novo você de todos os dias.

Com carinho,

Ma.

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