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Respeitem minhas alunas.

Não faz muito tempo que eu descobri o feminismo. Não faz muito tempo que eu descobri a importância de lutar pelo meu lugar ao sol. Desde que eu entendi que, mesmo que eu seja independente financeiramente, bem resolvida com minha vida sexual e plenamente consciente da minha capacidade de participação política, eu continuo sendo diariamente (a cada segundo da minha vida) oprimida, eu decidi que eu tinha que lutar. Ensinar que sujeito e objeto saem do campo da gramática e ultrapassam a relação social é uma dor e uma luta que fazem parte do meu dia a dia.

(não queremos mais ser objeto, nem o seu falso sujeito indeterminado. Eu quero ser EXPLICITAMENTE autora da minha ação)

Cada um sabe da sua luta. Cada um sabe do que tem ou não coragem de dizer, fazer e viver. E eu devo dizer a vocês que, na situação de professora, tenho muito medo às vezes de confessar minhas verdades. Esses dias um documentário contava uma história de uma mulher que se engajou na luta pelo feminismo quando engravidou de uma menina. É triste ter que esperar por esse momento, mas é compreensível: o amor próprio nem sempre é tão latente (alguém ensinou você a se amar?).

Tem acontecido comigo cada vez que passa um ano letivo. Olha, não sou mãe (talvez não serei, ao menos, hoje, não pretendo), mas eu tenho muito carinho pelas minhas alunas. MAIS QUE ISSO: eu me reconheço nelas. Elas são eu, eu sou elas. Tudo que elas sofreram, eu já sofri; tudo que elas sofrerão, eu também sofrerei. É mais do que reconhecimento, é mais do que empatia, é amor (próprio, inclusive).

Eu tenho tanto a dizer a elas. Vocês não imaginam quantas lágrimas eu vejo por ano. Não porque a prova está difícil, não porque o pai está doente, mas tão somente porque chega um determinado momento em que elas entendem que são diminuídas pela sociedade inteira. E não são verdadeiramente livres; e que não estão realmente seguras. Mas elas entendem também que, comigo, elas nunca vão estar sozinhas.

Eu já tive uma aluna que me disse, não faz tempo, que, na minha aula sobre violência contra mulher foi a primeira vez em que ela não se sentiu culpada por ter sido abusada pelo avô.

Vocês sabem o que eu estou dizendo? Eu não posso ir brigar com esse avô. Não dá. Eu posso é ensinar e dar apoio para elas.

E depois de um dia dolorido em que fiz isso por horas. Depois de ver mulheres fortes se entregarem a ideia de objetificação. Depois de ouvir meninos, meninas, sangramentos e feridas do patriarcado, o que a internet me mostra?

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Eu poderia (pelo cansaço, inclusive) ter preguiça. Desistir. Achar que não vai dar em nada.

Mas eu não vou, não. Eu vou ser o exemplo delas. Não serão esses textos (feito por mulheres, inclusive), nem essas fotos, nem essas revistas. Eu não vou deixar.

Lembrando que: não dá para ter ódio de quem, sendo minoria, também oprime. estamos todas presas, meninas. todas nós. lembre: dê um abraço, não vomite uma violência. O seu feminismo é por você e por todas elas (nós)

E toda vez que isso aparecer: eu vou criticar. E dizer o porquê.  E toda vez que uma delas chorar porque não se sente adequada ao padrão – como se fosse possível -eu ressuscitarei 2 milênios de teoria para explicar a violência que está inerente ao padrão estético. E toda vez que alguma delas estabelecer competição com a outra (porque é isso que vocês ensinam a elas) eu vou fazer de tudo para estabelecer o companheirismo, a sororidade.

E elas, que são representantes de uma classe social com acesso ao estudo, vão fazer disso uma arma: e vão estudar exaustivamente e serão as melhores. Porque, minhas meninas queridas, o mundo vai tentar tirar a sua roupa, seu respeito, seu amor próprio, sua autoconfiança, sua segurança. Mas o seu conhecimento, ninguém vai tirar. E é isso que vai devolvê-las à luta por um lugar não só ao sol, mas na beira da praia e com água de coco. Porque elas merecem! Porque são autoras da própria existência.

Violência, machismo e objetificação:saiam daqui já! respeitem minhas alunas. 

– e todas nós!

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10 thoughts on “Respeitem minhas alunas.

  1. Ana Lu diz:

    De vez em quando, eu volto aqui só pra reler esse texto. E, de saber que há professoras assim, me sinto um pouco mais respeitada pelo mundo, mesmo não sendo sua aluna. Obrigada por isso! Parabéns pela luta de todos os dias =)

  2. Críssia diz:

    Marcella, eu cliquei nessa caixa de texto pra te dizer tanta coisa, mas todas as vezes que penso no seu texto só consigo dizer: obrigada!

  3. rpjijdkm diz:

    Olá Marcela. Conheço você de longe pela unicamp e ja li uns textos seus. recentemente vi sua foto de perfil do facebook com uma camiseta escrito Respeitem minhas alunas. Já fui abusada por um professor e ver pessoas como você ali nas escolas é uma esperança. Obrigada, muito obrigada !

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