Gramaticolices, Sala de Aula

O amargo preço da recompensa

Somos educados a esperar recompensa. Quem não chora, não mama. Então a gente chora para poder mamar. Estuda para tirar nota. Tira nota para agradar aos pais, à sociedade toda. Agrada aos pais para ganhar elogios. Ganha elogios porque a aceitação do outro sempre será o que há de melhor. Mas não deveria ser.

Está na lógica da recompensa a grande parte das dores que podemos sentir. Sinto isso, desde que me tornei professora, todos os anos, com meus alunos. Eles estudam, eles tentam, eles se esforçam: mas, às vezes, eles não passam. Por que será? Não mereciam a recompensa? Mereciam, sim. É dolorido, é cruel, é injusto. Passar no vestibular não é o prêmio dos melhores, é o treino da recompensa ERRADA. Ela sempre virá? Nem sempre. Quase nunca. Por quê? Por que não eram capazes? Falácia de falsa causa: quem não foi capaz de ter a vaga foi o mundo. Todo mundo deveria poder estudar. Todo mundo deveria assumir sua sexualidade. Todo mundo, todo mundo, mas é quase ninguém.

E vem a vida, vem o trabalho: férias, salário, abraços, viagens. Queremos recompensa. Fizemos um almoço para os amigos: que se deliciem, que agradeçam. Queremos ganhar um chiclete big big de morango, já que demos um pirulito de coração, semana passada. Recompensa até espiritual: fazer o bem pelo reino dos céus e pela vida eterna.

A lógica é a da recompensa. Não discordo, nem sei se deveria mudar. Mas ter a consciência talvez garanta que a gente sinta menos dor. Porque dói ver janeiro acontecer e alguns alunos ficarem para trás. Porque dói ter feito tudo para encontrar sua melhor amiga, e ela furar. Dói ter preparado uma aula cuidadosa e o seu aluno dormir.

Esses dias dei uma tema polêmico: falar de feminismo e transsexualidade ainda é difícil em sala de aula. Como recompensa, eu esperava que alguns mudassem. Algumas vezes, recebi de volta machismo. Noutras, fui mal interpretada. É claro que tive a recompensa de algumas lágrimas emocionadas, abraços sinceros e mudanças visíveis. No entanto, fiquei pensando se eu não deveria desencanar e falar, pela sétima vez, que “onde” é pronome relativo para lugar. Fiquei pensando se eu não deveria parar de tentar almoçar com minha amiga, já que eu não tenho tempo e ela vai furar mesmo. Fiquei pensando se escrever declarações de amor são recompensas vazias.

Porque a gente pensa em desistir. Todo dia. É tão comum e recorrente.

E quem fez tudo certo e não recebeu nada, absolutamente nada, em troca? E quem recebeu de volta a violência? 

O mundo trasvestiu “obrigada” de socos e pontapés. Ao menos a gente se sente vivo.

Por fim, sem sair da lógica da recompensa – que é cruel e acaba nos engolindo – eu me lembrei do que já me disse, várias vezes, a minha mãe: a recompensa é a paz de espírito de ter sido justa com a sua consciência. Individualista, eu sei. Mas é que estou certa que eu não vou decepcionar a mim mesma. Nunca mais. É a minha recompensa final.

The painting SATURN by the Spanish artist GOYA.

The painting SATURN by the Spanish artist GOYA.

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2 thoughts on “O amargo preço da recompensa

  1. Nicole diz:

    às vezes eu dormia na sala de aula porque a insônia era foda! Foi mal por dormir na sua cara, mas eu bebia pra poder dormir e sabia que meu pai nao deixaria matar aula…

    • Eu imagino que todos temos razões para fazer quaisquer coisas, justamente é por isso que não podemos esperar. Fique tranquila, não é nada em relação a um aluno específico 🙂
      Espero que esteja bem!

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