Gramaticolices, Sala de Aula

é que adolescente sofre.

Antes de começar a escrever, um aviso: não tenho pretensão nenhuma de escrever um “manual para melhorar a vida do adolescente”, nem dizer aos pais como tratar os filhos adolescentes, menos ainda criar um “manifesto pelo direito de adolescentar”.  Eu só quero dividir as minhas impressões de professora, que vêm mescladas com minhas memórias (já não tão) recentes da adolescência. Mais que isso: vou tentar explicar aos meus amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos que acham esquisito e quase inacreditável quando eu digo: adoro adolescentes.

Mas eu adoro mesmo, e explico o porquê:

Para mim, o sorriso do adolescente vale o dobro. Adolescente sofre, gente. E não é tipinho não. Veja: eles não são nem adultos, nem crianças; têm e não têm responsabilidade; sabem e não sabem o que fazer. Não, não é fácil. E os problemas deles são reais. Não é porque eles não pagam conta que eles não têm preocupações. Uma espinha pode, sim, ser tão grave quanto o atraso do iptu, porque ambos são parâmetros que a sociedade nos impõe para nos cobrar. É preciso ter paciência com a dor e o sofrimento deles. Se houver paciência, há empatia. Quando há empatia e reconhecimento: a gente toca. E eles sorriem. SIM, ADOLESCENTES PODEM SORRIR. E quando eles sorriem para mim (ou riem de mim, tudo bem), eu ouço os sinos da glória.

A mídia não facilita. A vida, essa bandida, já não está fácil para ninguém que consome, minimamente, a grande mídia. É mentira para todo lado, lavagem cerebral pesada e um movimento invisível e massacrante sobre estética. Se está difícil para mim, com 26 anos e o mínimo de noção do que eu sou, imagine para alguém de 15, que não se localizou nem esteticamente, nem socialmente, nem culturalmente. Para alguém que é medido e analisado meramente pelo seu corpo, para alguém que cresceu envolto às redes sociais e que precisa provar seu valor pela imagem? É dureza crescer nos dias de hoje, galera. Eu era popular porque sabia falar outra língua, enquanto esses meninos nascem sabendo falar outra língua e precisam ganhar curtidas para que a sociedade os veja como alguém de valor. Às vezes, ao invés de explicar algo sobre isso, as pessoas ridicularizam essa competição que é tão ferrenha, piorando o que já é uma merda.

Eles não são necessariamente desinteressados, nem desinteressantes. A nossa mania de achar que o envelhecimento é uma necessária evolução é tão errada. Chamar adolescente de aborrecente é, aos meus olhos, um atestado de incapacidade de lidar com a alteridade. Adolescente é o alter por excelência, porque ele está no auge da impossibilidade de identificação. Ele não se reconhece nem em você, nem no espelho: chamá-los de aborrecente ou algo que o valha só aumenta o abismo gritante entre os ‘adultos-donos-da-verdade’ e esse ser, que precisa de um apoio, afinal, ele está sendo jogado, sem aviso nenhum, no mundo violento da gente grande. São cobrados deles que eles ajam como adultos, mas a confiança que lhes é dada é a de um bebê engatinhando. Vocês não confiam neles e esperam confiança por parte deles? É sério?

Adolescentes são vivazes. O sono do adolescente é muito sincero, faz parte dele. Deixe ele dormir um pouco mais, vai? Apesar desse sono incontrolável, eles são cheios de energia e, quando essa energia está bem canalizada, ela produz coisas lindas: já não tão cruas quanto a das crianças, mas também não tão cristalizadas como as coisas que nós, velhos de guerra, produzimos.

E, por fim, adolescentes são lindos. Nas espinhas, no cabelo sem identificação, nas bijuterias desordenadas, nas roupas confusas e naquela voz que não se define. Quisera nós podermos ter um pouco de confusão adolescente na cabeça: saber um pouco menos o que estamos fazendo da vida…

ps: sei que algumas características apontadas no meu texto se resumem aos adolescentes de classe-média com os quais me envolvo hoje em dia. Mas muitas delas, na realidade, são de todos os adolescentes…se eu pudesse dizer só mais uma coisinha: não faz sentido nenhum jogar tudo isso numa cadeia. Sem chance nenhuma de (sobre)vivência.

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2 thoughts on “é que adolescente sofre.

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