Num é?

Depois de um outro, os outros são os outros e só.

Há uma ilusão em estar apaixonado que não nos permite dar conta de uma realidade: o outro não está em nós. Quando a gente se apaixona, fica achando que o outro mora dentro da gente. E porque esse outro é capaz de trazer os momentos de alegria mais intensa, que ele – por uma mágica do destino – seria incapaz de trazer os de dor. Mas o outro é outro, e não mora bem aqui. Ele não tem acesso aos nossos pensamentos  – mesmo que pareça  adivinhar os nossos desejos, às vezes. Ou será que a gente deseja, para ser mais fácil, aquilo que o outro já faria? Não sei. E, por fim e mais triste, nós e os outros não somos a mesma pessoa, o que significa que não vamos agir da mesma maneira diante das situações do cotidiano.

Trocando em miúdos, tudo isso significa que não dá para culpar o outro se ele, por ventura, provocar uma dor aguda na gente.  Nele, não doeu. E criança só aprende a não mexer no fogo quando se queima – a experiência é a melhor professora. Não é possível  que o outro preveja que você queria uma declaração de amor pública, uma mensagem de madrugada, uma ligação perguntando se está tudo bem, já que o tom da sua voz era outro. Talvez o tom da sua voz seja diferente só para você, e ele não dá a devida atenção à necessidade, que é sua, de se expressar por palavras. É impossível esperar do outro um sorriso, um abraço e um beijo no exato momento em que a gente deseja; porque o desejo do outro não vai coincidir com o seu – ao menos, não sempre.

Toda essa constatação é óbvia quando falamos de um outro qualquer, não aquele. Não aquele que fica gritando dentro da sua cabeça e dizendo  ‘você é louca por mim’. Não aquele que parece ser feito de luz, e acorda lindo até de ressaca. Parece que todos os outros poderiam ter falhado, mas não ele. Ou ela. Que tem mais persuasão num sorriso do que populista em época de eleição. O outro que causa um amor tão violento que sai da gente: em lágrima, em gargalhada, em suor. O outro que tem acesso à melhor e a pior versão de você. O outro que te deixa de tpm o mês inteiro – não sabendo se chora ou se ri. É claro que a lógica do pequeno príncipe também é falha para ele. Ninguém é responsável  pelo sentimento do outro. O que acontece é só uma ilusão – de minutos ou dias – de que aquele lá não poderia não ser surpreendente. Ele é tão inteligente. Ela é tão doce. Aquele outro parece que foi desenhado pelos seus sonhos infantis, como parte do seu mundo ideal. Coitados de nós, tão exigentes; coitado do outro, tão incrivelmente comum, como qualquer outro.

A gente vai seguir imaginando – é o ônus da paixão. E aquele lá, que não deveria estar em outro lugar além de exatamente aqui, estará. Sempre estará. Porque ele é outro, não eu. Ainda bem.

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