Ando em crise com o mundo, papai. Algumas pessoas não são sinceras comigo; aqui e lá, descubro o que de fato elas pensam de mim enquanto sorriem e me perguntam se eu estou bem. Sou dessas pessoas desagradáveis que responde a verdade: “tudo bem?”; “não, uma bosta”. Não minto bem. Não consigo sorrir com os olhos e vomitar dores pela boca; menos ainda sorrir enquanto meus olhos se afogam em lágrimas. De todos os defeitos que tenho – inclusive entre aqueles listados pelas pessoas que preferem dialogar com as minhas costas do que com minha fronte – o pior deles é esse. E a culpa foi sua, pai. Você me ensinou, diariamente, que eu não deveria mentir. Eu me lembro muito bem de uma tarde na primeira série em que eu fui chamada na diretoria. E você também foi. Eu havia sido culpada pelo seguinte diálogo

“por que você tirou 10 e eu 7?”

“porque eu fiz direito a prova e você não”

Parece que a menina chorou tanto, mas tanto, que você foi chamado. Lembro de você impedir a diretora de me dar bronca por isso: “ela não mentiu”; você me levou embora contigo e me explicou que algumas pessoas não aguentam a verdade. Ainda assim, era a verdade que deveria prevalecer, ao menos dentro da gente.

Tenho um pouco de dificuldade ainda em guardar para mim ‘a verdade’ – que hoje, sei, que é a minha verdade. Tento, em nome da cordialidade, espalhar por aí as mentiras sinceras que os interessam. Sabe, pai, tem uma galera por aí que prefere que a gente minta. Eu não minto, não. Mas – a duras penas e perdendo amizade – eu estou aprendendo a me calar mais. Ainda assim, não tolero mentiras: prefiro a ofensa mais dolorida dita para mim, do que um comentário só sutilmente maldoso dito às escuras.

Por isso tudo, eu te culpo, Pai. Foi sua culpa também o fato de eu saber exatamente o que eu penso; exatamente o que eu sinto. Por sua culpa, ninguém que está ao meu lado tem meu rancor, porque, por sua culpa, eu me afasto sempre de quem espera a falsidade. Por sua culpa, meu tão querido pai, eu não invento sobre a minha vida. Não fantasio o que não acontece. Não iludo as pessoas. Não fico criando um mundo fictício de cordialidade. E se o meu dia foi ruim, eu respondo que foi. E se eu não me interesse em saber como vai alguém, eu não pergunto como vai alguém. E mesmo se um aluno me perguntar o que eu acho do desempenho dele…Eu digo o que acho, por mais dolorido que seja.

Não culpo as pessoas que não o fazem. Não culpo o sorriso falso que às vezes fica ao lado do meu. Pode ser que a nota 7 da menina não fosse culpa dela. Pode ser que eu não fiz direito a prova. Pode ser que eu não merecia dez. Mas ela me perguntou o que eu achava; e o que eu acho é o que eu tenho a dizer. E o que eu tenho a dizer deverá, sob qualquer circunstância, ser honesto. Rezo que essa lógica volte para mim. Que a verdade dos outros (porque, reitero, não existe uma verdade absoluta) me seja dita. Que eu possa ouvir e responder. Que haja diálogo: não cabe diálogo onde não entra a verdade.

Ainda assim, sei de uma verdade importante: não vai ser assim. Isso porque algumas pessoas sempre continuarão mentindo. Não as odeio, não, pai, de verdade. Elas tiveram que seguir exemplos diferentes dos meus. Que a sorte a minha poder ter você para culpar. Obrigada, papai.

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Cartas d'ela.

Foi sua culpa, pai.

Não as odeio, não, pai, de verdade. Elas tiveram que seguir exemplos diferentes dos meus. Que a sorte a minha poder ter você para culpar. Obrigada, papai.

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