Feminismo

Machismo ao volante, perigo constante.

Machismo mata. Essa frase, às vezes, não é levada tão ao pé da letra como deveria. Para alguns homens e mulheres que não acreditam nessa assertiva, algumas coisas passam batidas, ainda que elas se esfreguem na nossa cara. O machismo mata todos os dias. As violações, os estupros e os feminicídios  são (infelizmente) uma realidade impossível de ser ignorada. O que alguns – levianamente – ignoram é que: essa violência explícita e sua inocente piada sobre mulher têm um tronco comum e igualmente contribuem para a propagação da violência.

Não entendeu? Deixa que eu explico.

Não sem frequência, escuto por aí: “mulher no volante, perigo constante”; ou “tinha que ser mulher” relacionado a algum problema de trânsito (acidentes, desvios abruptos, as boas e velhas ‘cagadas’, ausência miraculosa de seta, entre outros). Isso é machismo. Machismo mata.

Pessoas que gostam de mim já me disseram isso: alunos queridos, colegas, amigos. Até mesmo meu pai. Arrisco que nenhum dos meus amigos me quer morta ou sofrendo. Com certeza absoluta, meu pai não quer. Mas eles me matam um pouquinho toda vez que dizem algumas dessas frases, ou mesmo olham com cara de “ta vendo?” se o motorista que não deu seta, de fato, é mulher.

E quer saber como eles me matam?

Tenham em mente que eu dirijo cerca de 40.000 km/ano. É muito. E toda vez que eu pego um trânsito na rodovia Dom Pedro (ou similares) e, com os carros pareados e parados, ouço o carro ao lado me chamar (concentração é tudo no trânsito, minha gente). Quase bati o carro mais de uma vez, em função disso. Várias vezes motoristas começam a me paquerar e, quando subo o vidro, o carro acelera e me ameaça. Já fui seguida por um carro, precisei andar por mais de meia hora, a 50 km/h para despistar. Morro um pouco toda vez que um caminhoneiro se aproveita da posição do caminhão para olhar meu corpo pela janela. Toda vez que o motoboy chuta meu retrovisor porque eu não respondi aos chamados dele. Todas essas vezes, o machismo quase tirou minha vida; e, em toda elas, ele tirou minha dignidade.

Também quando bati o carro e estava frágil e o meu ex-chefe (NUNCA foi tão bom me demitir) riu de mim. Eu mal tive reação. Isso tudo porque eu estou ocupando aquele lugar destinado a homens. Isso porque é uma mulher ultrapassando, mudando de faixa, vivendo um ambiente que não lhe foi destinado. Não querer que eu dirija é uma lógica machista simples: eu incomodo porque não estou onde eu deveria estar. Acontece, minha gente, que é meu lugar onde eu achar que é.

Certamente, meu pai, quando fez um comentário sobre a vizinha que dirige mal porque é mulher, não pensou que botava minha vida em risco. Nem meu amigos, nem ex namorados. Nem colegas. (meu chefe acho que até gostaria de me ver sofrer). Mas eles, todos eles, colaboraram com isso.

E, no fim, me resta apenas uma certeza: machismo mata; material e imaterialmente. Não queira ter esse sangue em suas mãos.

oleo sobre metal   /                                            29?5 x 39?5 cm  /                                              EN KAHLO, Frida (1993), The blue house. The word of Frida Kahlo, Schirn Kunsthalle Frankurt, Frankfurt.p. 115

oleo sobre metal / 29?5 x 39?5 cm / EN KAHLO, Frida (1993), The blue house. The word of Frida Kahlo, Schirn Kunsthalle Frankurt, Frankfurt.p. 115

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