Cartas d'ela.

Tão igual

Acho graça quando você me acha especial. Garota classe média, né, tão diferente e tão igual a maioria. Você gosta das minhas tatuagens, mas não nega que aquela, ali no ombro, sempre fica um pouco clichê. Pior só uma frase em Latim. Tão típico da garota de humanas de universidade pública, né. Essa que protesta contra a PM na usp e gasta metade do salário lá na Arezzo (justo a Arezzo, caralho!). Você acha muito firmeza que eu bebo bem mais que você, mas no fundo seu sonho era que eu pedisse uma “Sakerita de morango, bem levinha, tá?” enquanto você, e não eu, se acabaria no chopp. Você diz que não curte mulher magrela e que eu fico linda com as minhas curvas, mas ah, uns 5 kg a menos me deixariam ideal, não é não? Ontem você disse que adora meu batom vermelho, que me deixa sexy e imponente, mas eu me lembro de te ouvir dizer que aquela rosa claro combina mais com a minha pele. Com a minha pele ou com a sua moral? Eu não lembro. Eu mesma às vezes não tenho certeza. Quantas vezes você suspirou pelo meu cabelo cacheado e quantas outras vezes  você não quis me contar, mas poxa, uma chapinha me caia tão bem! No fundo você sabe que quando eu vou toda animada e fitness pra academia eu, na verdade, trocaria cada minuto naquela esteira por uma cirurgia que diminuisse a minha bunda. E aquele sorriso fazendo bíceps é só brincadeira, ou devaneio. Tava pensando na janta que eu faria: puxa, como te agrada esse meu lado retrô, cozinheira e boa moça, a professorinha de português. Especialmente quando eu uso o avental com meu vestido curto e você não consegue diferenciar o que, de fato, tapa as minhas pernas, que – a gente sempre soube – você preferia que fossem menos à mostra. Tem dias que você prefere meu lado garota bem sucedida, a estudante de crítica literária, aquela ali, com um blog muito interessante sobre sexualidade. Que você não vai divulgar pros seus amigos, afinal, você não quer ver minha foto de lingerie passeando por ai, oras! Tô cansada de você, bom senso. E de você, decência… Agora eu escuto a música do Chico, droga, por mais que eu discuta as políticas, sempre foram as românticas que me puxaram quase pra dentro da voz rouca dele. Voz rouca, você sabe que eu me desfaria dos meus livros prediletos pra ter uma voz menos rouca, mais aveludada… Mas eu não ia poder dizer que tenho voz tele-sexo, e perderia as piadas de travesti. Você ri da minha cara porque eu me divido entre esse jeito muito prático de mandar as coisas acontecerem e aquele quase infantil de levantar os olhos e pedir, quase implorando, pra você apagar luz. É que às vezes, sabe, eu não quero ver, que no fundo, bem no fundo, eu sou exatamente aquilo que eu planejava ser. 

01_As_duas_Fridas_1939_01

texto original de 2011, publicado num lugar que não existe mais.

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