Pensamento Desvairado

pensamento desvairado 1.

Acabou o cd, e ela saiu em busca de outro desesperadamente, antes que desse tempo de ouvir sua própria loucura. Vozes bonitas alheias sempre escamoteiam a verdadeira voz, aquela que vem da dor. Se não dói, não vem o grito, tinha dito um amigo. E é preciso gritar, ela sabia, mas preferia acreditar no silêncio; não no dela, já que havia perdido o controle sobre o que dizia já há muito tempo. Quem sempre falou foi a sua loucura, tão sádica, tão masoquista, tão charmosa; o que elas tinham de mais bonito era que se odiavam e não podiam conviver em paz. Preferia acreditar no silêncio e antes que desmanchasse o sorriso em grito, parou.
Respirou fundo, desabotoou a camisa nova até a altura do soutien. Estalou o pescoço para um lado, estalou para outro, deu um suspiro de saudade e outro de tesão. Passou o batom que combinava perfeitamente com a pele dele, último recanto do vermelho e sorriu. Do espelho, a loucura sorria de volta, ela sabia quando ganhava uma discussão e era do tipo gentil, não saia por aí cantando vitória, reservava suas vinganças diárias para momentos pontuais: tapas, arranhões, gritos, mordidas. Aí era a loucura que falava, aí só essa voz se ouvia. Olhou para  baixo, da altura do salto que usava se caísse perderia a consciência. Riu para si mesma: que consciência?Rosa&Val-69
Foto: Giovanna Romaro Fotografia
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