Feminismo, Sala de Aula

A legalização do aborto e a violência do nunca

Nunca é uma palavra que não deveria existir. Ninguém nunca nada. Não tem essa de nunca. Mas só aprendi isso hoje, dando aula.

Fui falar da importância do Estado Laico, da diferença entre público e privado e do quanto isso interfere na questão do aborto – que é um problema de saúde pública. Fiz a comparação que me parecia didática: “eu nunca abortaria, mas quero que isso seja uma escolha para quem o faria”. Errei feio. Fui corrigida –  humilde e sabiamente – “professora, ninguém acha que faria até fazer. Você não poder dizer que não faria se não esteve grávida e optou não fazer”

Verdade. Essa é a verdade para todos os nuncas que eu já falei. Acreditar que a gente sabe exatamente como agiria é tão utópico quanto achar que temos total liberdade em relação a todas as nossas escolhas nessa vida.

Sobre a importância da legalização do aborto, muitos textos melhores que esse falarão.

Eu só quero pedir desculpas a todas as mulheres que eu oprimi com os meus ‘eu nunca’; às pessoas que eu não pude dividir a dor porque eu acha que “eu nunca”; a todos que eu não fui suficientemente empática, porque ‘eu nunca’ poderia pensar daquela forma…

Os ‘nuncas’ que são as nossas constantes – e inúteis – tentativas de controlar a nós mesmos. Mais fácil criar um unicórnio de estimação. Quem é que sabe de si daqui a cinco minutos? E quais condições são postas a você?

eu nunca mataria. Em quaisquer condições? Em algumas, mataria. Mas dorme feliz minha consciência ignorante achando que eu nunca…

Que a eliminação do nunca não seja, também, o relativismo extremo: não sei o que eu nunca faria – provavelmente nada – mas é preciso ter coisas que você espera nunca fazer.

Eu não sei se nunca mais vou oprimir uma mulher; mas eu sinceramente espero nunca mais fazê-lo.

Obrigada aluna, pela aula de hoje. E que a luta pela descriminalização e legalização do aborto na América Latina dê os frutos desejados: possibilidade das mulheres, na condição em que se encontram, optarem de maneira segura sobre o corpo – que pertence a elas, e a mais ninguém.

5080

Anúncios
Standard

One thought on “A legalização do aborto e a violência do nunca

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s