Aviso aos navegantes: isso é só um desabafo, não é um texto teórico, nem poético. Só um desabafo. Porque um amigo disse que eu deveria. E porque tá entalado em mim desde quarta.

Tem dias que eu sou dura demais com as minhas alunas. Cobro muito delas, muito mais do que dos alunos do gênero masculino. Fico desesperada porque quero que elas sejam fortes. Tenho medo do que o mundo lhes reserva. Queria poder pegá-las todas e levar comigo, para que, ao menor sinal de violência, eu as protegesse. Como sei que não posso fazer isso, obrigo que se fortaleçam, às vezes, pedindo demais. Brigando demais. Amando demais.

Eu não tive uma professora assim. Eu descobri o feminismo na universidade. Pelo contrário, eu tinha uma professora que dizia que mulher é chata e fazia piada racista com o menino negro da turma.

Aos 16 anos, arrumei um namorado de 26. Na escola, ninguém me podou. Ninguém disse que tava errado. Pelo contrário, eu estava sendo bem sucedida na minha função de mulher ‘mais-madura-que-a-sua-idade”. Foi abusivo. Heroicamente, não sei nem como, nunca deixei que ele conseguisse transar comigo.  Por sorte, tenho pais incríveis, que quando souberam do namoro, proibiram. Um namoro que ia acabar: ou eu transando sem vontade; ou ele indo embora porque não o fiz.

E eu caía nessa de ser mais madura. E achava bonito. É como a gente ensina as meninas a serem mães dos seus namorados: você é mais madura que ele, ele é moleque. E por que eu não posso ser moleca?

Pareço mais cruel que mãe, mas peço as minhas alunas que não se envolvam com homens tão mais velhos. A conta não fecha na lógica do relacionamento amoroso. E elas nem percebem o que há de tão violento nisso.

(cara, se você tem 35 anos e seu namorado 65, foda-se a idade. Eu to falando de crianças).

Talvez a Valentina tenha sido um corte necessário na ferida. De um país que ensina meninas a serem sexualizadas quando nem tem corpo para isso. Que ensinam a competir. E nunca a se unirem. Que as maquiam, as arrumam o cabelo, as unhas e não lhes fortalece a alma.

Que não fala de sexo porque é pecado, e ensina a fazer tudo às escondidas, sem informação.

Que não fala sobre sororidade, e ensina que uma tem que ser melhor que a outra.

Que usa a ‘maturidade das meninas’ como desculpa para aprisioná-las, submetê-las e humilhá-las: com padrão estético e comportamental.

Quando li os tweets do caso Valentina, eu chorei, pensando na Camila, pensando na Mayara, na Marielly, pensando nas Júlias, na Ingrid, na Gabriela, na Giovana, nas Marias, Anas, em todas elas.

Chorei pensando no mundo que minhas alunas ainda enfrentam. Nem pude escrever nada. Nem conseguia.  Eu vi a campanha “primeiro assédio” e pensei nos meus. Foram tantos que eu mal conseguia elencar em ordem qual teria sido. Será que aqueles homens que aos seis anos me chamaram quando fui ver meu pai no trabalho dele? Ou o professor que ‘carinhosamente’ me apelidou com o nome de uma modelo pornô? Ou quando meu primeiro namorado, de 26 anos, dizia que eu era especial porque falava várias línguas e tinha um corpo de mulher, desde então?

Meu corpo era de mulher, mesmo. Não pelo tamanho dos seios, não. Mas já marcado pela violência que a gente sabe que vai sentir.

Valentina somos todas nós. Se teu nome fosse Maria, eu diria que a dor do mundo estava aí. Mas é Valentina: me dá um pouco de esperança (mínima, quase apagada) de que a gente pode ter coragem e brigar mais forte.

 

Veja só: e tem gente que me pergunta se não quero ser mãe.

Se nascer menina, eu morrerei um pouco todos os dias. Como já faço.

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