Pensamento Desvairado

é preciso recomeçar

Já disse, mais  de uma vez, a importância que identifico em momentos ritualísticos, como a passagem de ano. Mais nova (mais gentil, talvez) e mais esperançosa, eu via no recomeço de ano a beleza da renovação. Só os mais babacas fazem questão de avisar que o dia 1 é aquele que vem depois do dia 31 e que o ano novo não é de fato novo. Ah, jura? Tava aqui tentando entender como podia toda vez o ano começar de novo. Incrível.

Enfim, todo mundo, isento da quantidade alcoólica recorrente nesta época, pode perceber isso. A poesia não está em fazer de novo o que é velho, a poesia está em se dar mais uma chance. E se você se acha ‘diferentão’, ‘bacanão’, ou qualquer coisa que o valha porque você não crê nesse recomeço, uma dica: recomeçamos – literalmente – todos os dias.

Há um ritual em dividir a vida em dias, meses e anos. A contagem do tempo é uma necessidade humana que ultrapassa a questão geográfica (você poderia me dizer que não tem como não fechar o ciclo quando chega a noite, mas você sabe bem que não é disso que tô falando). Mesmo as mulheres mais velhas, obrigadas pela lógica do não-envelhecimento feminino, que se recusam a assumir que “mais um ano se foi”, no fundo, sabem que é preciso passar, porque é preciso se reinventar.

E não pelo outro, e não para ser melhor socialmente e menos ainda porque é uma mudança positiva. Na maioria das vezes, nem é positiva. É absolutamente NECESSÁRIA. Você não se aguenta mais, sabia? Experimente não recomeçar. Experimente não mudar o cabelo, o estilo, as piadas. Experimente fazer por anos as mesmas coisas: salvo relatos de neuróticos, qualquer um odiaria. E não é porque o mundo se cansaria de você, é porque, antes disso, você se cansaria de você.

Nós somos insuportáveis. Nós sentimos isso.

No dia 31, porém, nos reestruturamos. Como um menino que espera chegar as 14h para começar a tarefa e conta os segundos para o intervalo. Como uma adolescente que cronometra o tempo em que escreve sua redação, porque depois poderá estudar algo mais bacana. Como alguém que corre e cronometra os minutos e sabe que depois virá a deliciosa enxurrada de endorfina; como um casal que renova seus votos e vê nisso o respiro do amor que adoecia; ou mesmo os casais recém começados que comemoram mês a mês a união, na tentativa de imortalizar o tempo e permitir novos recomeços; nós, todos nós, precisamos acreditar que seremos diferentes, renovados, refeitos. Nós precisamos acreditar que somos capazes de mudança para que a nosso velho relacionamento com nós mesmos aguente mais um pouquinho. Ao menos mais um ano.

Feliz ano novo, feliz você de novo.

ione_saldanha_topIone Saldanha, compactando cores..

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