Feminismo, Sala de Aula

O que você faz além de dar aula?

Recebi essa mensagem, reproduzo-a na íntegra:

Oi, Marcella, td bem? Então… Eu percebi, há um certo tempo, que o número de professoras nos cursinhos é muito pequeno. Tenho pesquisado , mas não achei muita coisa sobre o pq disso. Então, minha opinião sobre o assunto não tá completamente formada. Eu tô prestando vestibular pra Letras e história que são duas áreas que gosto muito. Estou convicta de que quero dar aula pra jovens, mas parece que existem algumas barreiras. Eu gostaria muito que você escrevesse um texto sobre, pois acredito que você tem uma opinião sobre o assunto.

Demorei uma semana para conseguir digerir o desafio. Mas a resposta que eu tenho a dar a minha aluna é bastante simples: cursinhos e universidades não acolhem bem professoras porque esses são lugares onde é preciso ser firme e ter muito conhecimento.

Há várias falhas nessa resposta:

  1. Por que o ‘lugar do conhecimento’ não é destinado a mulheres?
  2. Por que mulheres não podem ser firmes?
  3. Quem disse que as demais etapas da educação independem de conhecimento?

O fato de existirem essas problemáticas não me ajuda tanto a responder. Antes que me interpretem mal, aviso: não acho que não tenho muitas colegas no meu atual trabalho porque meus superiores são machistas ou misóginos. A oferta também é pouca. O incentivo é pouco. Quase não há representatividade. Como se tornar essa professora de cursinho se há gerações elas NÃO EXISTEM ou existem infimamente?

Quem vai incentivar essas meninas?

Isso que eu ainda estou na área de Linguagens, onde a mulher ainda ocupa um lugar menos deslocado socialmente. Que dirá das químicas, físicas e matemáticas que eu conheci?

A educação básica, no entanto, é nos oferecida aos montes, por um salário bem menor. E por quê? Porque somos naturalmente maternais. Curiosamente, mesmo sem ser tão maternal assim, sempre me dei bem com os pequenos. O mito da professora-mãe sustenta os salários baixos. Homem vai para o médio, curso e universidade.

De resto, temos machismo repetido a exaustão até quase parecer verdade.

“Homem é mais firme que mulher” é a velha falácia do “ser firme” como “provocar medo” e “provocar medo” como sendo “grande”.

O que dizer de Napôzinho, não é? E das minhas colegas competentes que calam uma sala inteira com uma explicação.

Em tempos de smartphone e tablet, ainda segurar uma sala prestando atenção em você é uma conquista a ser celebrada. Um momento de glória não conquistado pelo gênero de alguém. Só pelo conhecimento e capacidade de transmiti-lo.

Acho que respondi a dúvida da minha aluna. Ainda bem que ela me perguntou isso, porque se ela tivesse me perguntado se a solução é simplesmente colocar as professoras na grade de horário, eu, provavelmente, diria: não sei.

Não sei quantas querem, já que foram marginalizadas. Não sei quantas aguentam, por somos mil vezes mais contestadas em nosso conhecimento. Não sei quantas precisam ser humilhadas. Não sei quantas gostariam de pensar 5 vezes mais na roupa que um homem, já que tem aluno que filma embaixo da saia – longa ou não. Não sei quantas lidariam bem com as piadinhas que surgem. Não sei quantas gostariam de sentir de perto a competição a que fomos ensinadas, nos olhos das alunas nas primeiras aulas. Não sei quantas teriam estômago para alguns comentários sobre o nosso corpo.

Hoje, depois de ganhar menos que homens para ocupar o mesmo cargo e de ouvir de um aluno que uma professora jamais será tão boa quanto um professor, posso dizer que estou numa situação muito favorável. Tenho alunos maravilhosos, superiores que admiro e respeito e espaço para trabalhar como me aprouver.

Ainda assim, hora ou outra me contestam: O que você faz além de dar aula?

Eu luto, meu senhor. Luto contra um sistema inteiro que não me queria lá.

editado para um ps: meninas, é difícil, mas é muito, muito, muito gratificante.

remedios_varo_388484001.jpgDescobri muito recentemente Remedios Varo, pintora desse quadro. Estou em êxtase com o trabalho dela

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