Num é?

A morte do outro e o eterno egoísmo

Esses dias andamos perdendo pessoas queridas quase (ênfase no quase) mundialmente: apesar das minhas críticas pessoais ao Bowie, não dá para não se sentir minimamente tocado com a morte de um gênio musical. Eu só vi dois filmes do Harry Potter e só li o primeiro livro, logo não tinha uma relação de amor com a figura de Snape, mas Alan Rickman morreu jovem e fez filmes incríveis.

Por um lado, comoção mundial; por outro, pessoas que ridicularizam esse sofrimento, que, ao meu ver, é bem genuíno. Quero dizer que acho que esse sofrimento tem mais a ver com nosso egoísmo. E não, isso não é exatamente um problema.

Cássia Eller foi a minha primeira perda famosa. 2001, eu tinha 12 anos. Eu amava as músicas dela. Eu sofria, eu cantava, eu adorava tudo. E ela morreu. Antes os Mamonas já tinham morrido, mas afora achar divertidos, não era uma fã sofredora. A morte da Cássia me marcou.

Não raro você escuta alguém mais velho (que eu, no caso) comentando a morte de Cazuza, Kurt Cobain, Freddie Mercury e outros famosos. Cada um tem o relato da morte de um famoso. Minha mãe se sentia ligada ao Sena, era como se fosse da família.

Poucos – acho que só as mães e seu infinito coração são capazes – pensam na família do indivíduo. Como estão os filhos? Os pais ainda viviam? Poucos pensam como estão os cônjuges, agora viúvos. A gente não pensa na vontade que aquela pessoa tinha de viver. Prova disso é a constante violência que a família que perde famosos pode passar. Lembro agora da filha de Robin Williams.

A gente só pensa na gente. Somos egoístas com a morte do outro. Quantas músicas a Cássia teria interpretado e feito meu pendrive mais feliz enquanto dirijo Anhanguera a fora? Eu me pergunto toda vez que escuto a interpretação dela de “No Recreio” ou de “Luz dos Olhos”. Nando Reis e sua voz de taquara rachada também preferem a versão dela.

Há na morte do outro uma morte da gente, oras: se até meu ídolo morre, sofre, tem câncer, overdose, quem sou eu para estar vivo? Mesmo inconsciente, há uma comparação.

Não raro as pessoas dizem: prefiro morrer a te ver morrer. É amor ou egoísmo? É mais fácil morrer do que ver a pessoa que você ama sofrendo, não é não?

São perguntas. Não respondo nada. Falo mais por mim: eu tenho uma relação egoísta com a morte. Escolheria morrer antes de todos aqueles que eu amo profundamente, se eu pudesse. No fundo, covarde e egoísta que sou, vejo o último clipe do Bowie com a dor de quem queria ver outros mais.

cassia

Eu gostava muito desse sorriso.

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One thought on “A morte do outro e o eterno egoísmo

  1. Roberto Parcianello diz:

    O que vejo e sinto com o sofrimento do outros com a morte não é totalmente pela do outro em si , mas pelo medo do inexorável morte ,da morte do eu paradoxalmente egoísta.

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