Feminismo, Pensamento Desvairado

De como o feminismo me ensinou a superar uma traição

Já fui traída e já trai. Escrevo esse texto da minha pura experiência e passo longe de qualquer aspecto teórico. Desculpem os amantes das estatísticas, mas um pouco de vômito pessoal salva uma noite de domingo.

Já procuraram o significado de traição no dicionário? Aparece como sinônimo ‘iludir’ ou ‘enganar’. São muitos os motivos que fazem uma traição ser dolorida. A pior delas é justamente o próprio ego: como é que eu fui me enganar?

A dor da traição é a dor de se sentir burro. Eu, como boa egocêntrica, sempre me achei no controle de todas as situações que vivia. Mas eu nunca estive plenamente sobre o controle. E quando trai, fui uma idiota. E quando fui traída,me senti assim.

É claro que só quem vive uma dor sabe do que é capaz de fazer nela. Eu fiz pouca coisa prática, na realidade. Mais me fechei na minha dor do que agi. Agi mesmo bebendo muito e dando trabalho para umas boas amigas que me cuidaram.

Mais nova, porém, quando eu desconfiava que algum namorado ou parceiro tivesse feito algo de fora do combinado no relacionamento monogâmico, eu sentia muita raiva da mulher. Ninguém me dizia que ela não tinha culpa. Eu alimentava esse ódio, criticava-a e tentava encontrar a culpa que eu queria isentar do único culpado pelo erro: aquele que tinha um real compromisso comigo. Pior do que eu fazia a ela eu fazia a mim: a cada vez que eu a destruía, eu me destruía.

Demorou para eu entender que ela era eu, e eu era ela.

Mais velha, fui traída de novo. Eu conhecia a moça que se envolveu com o meu namorado na época. Era inteligente, era legal. Uma menina ótima mesmo. Não consegui culpá-la. Não senti raiva dela. Disse a ela isso. Disse que ela não precisava se afastar de mim. Eu não menti em nada do que falei. Quando a via, às vezes, desviava o olhar, porque a imagem dela me lembrava uma dor aguda que eu tinha sentido.

Mas aos poucos foi passando. E diferente das vezes que eu alimentei o ódio pela suposta rival, quanto menos eu queria competir com ela, mais eu achava razões para traição ter acontecido. E todas as razões não me incluíam, nem a incluíam. A falta de caráter, a deslealdade, a mentira vinham só dele. Nós continuávamos sendo as mulheres que éramos antes do fato. Ele não era mais o mesmo homem.

Muda quem trai. Não quem é traído. Mudei eu quando, por puro egocentrismo, causei dor em quem me amava.

No fim das contas, fica sempre um autoestima destruída. Antes achava que era a de quem sofreu a traição. Mas não é. Seres humanos são incríveis, múltiplos, interessantes. Mulheres são incríveis, múltiplas, interessantes. Ela também. Nada justifica a quebra de um acordo ou a mentira. Não isento, nem isentarei nunca um homem da culpa da traição. Mas eu isento a mim.

Não me sinto culpada, porque eu não perdi nada. Nós não perdemos absolutamente nada no momento que somos traídas. Não, a gente não ficou feia, boba e sem graça; não, a gente não é melhor nem pior que a outra ou outro; a gente não tem culpa nenhuma.

Graças a isso, hoje eu posso encontrá-la, olhar e sorrir. Notar como aquela roupa cai bem nela. Como ela tem crescido intelectualmente. Notar, também, voltando pra casa, que no espelho tem uma mulher interessante, a despeito do que qualquer homem um dia pode ter dito ou feito a ela.

 

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6 thoughts on “De como o feminismo me ensinou a superar uma traição

  1. Priscila diz:

    Olha, muito bom o seu texto, sou feminista, mas acho que há coisas incoerentes. Toda traição é ruim, independente do agente que a faz, se um homem, ou uma mulher. Digo isso porque já vivi uma situação parecida em família. Uma diarista, a quem minha mãe sempre ajudou, doando roupas e cestas básicas traiu com meu pai. Então, acho que é preciso ter cuidado. A culpa sim, foi do meu pai, ausência de caráter, mas também da mulher, que vendo minha mãe doente e ajudando, não teve caráter para não fazer o ato. Então pera-lá. A coisa não é assim tão bonita como você descreveu. Se a pessoa sabe o que está fazendo, é sim desvio de caráter, seja homem ou mulher.

    • Querida, acho que não me fiz clara: eu não quis dizer que a mulher não sabe o que está fazendo. No caso que eu contei, ela não sabia nem que eu existia! Mas mesmo a mulher que coaduna com a traição está sofrendo a opressão clássica: a competição feminina.

  2. juliana diz:

    A mulher que sabe que está traindo OUTRA MULHER (cadê a sororidade essa hora?) que, por sinal, a ajuda está competindo? Não acho. Acho que está sentindo atração, por ter sido seduzida por um homem,e deixou que aquela emoção fosse maior que a razão de simplesmente não TRAIR outra MULHER.

  3. Texto maravilhoso Marcella, é exatamente isso quem tem um compromisso quem tem um comprometimento que deve a fidelidade, muita das vezes a competição construída socialmente pelo patriarcalismo fomenta a traição de uma mulher com a outra, como disse a colega acima. Mas não podemos e nem devemos nos sentir culpadas por uma traição de um homem.

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