Feminismo

Fernanda Torres, assista a seu filme.

Em 1986, a (excelente) atriz Fernanda Torres estrelou o filme “Eu sei que vou te amar”, escrito por Arnaldo Jabour.

É um filme visceral, forte, de diálogos densos e violentos. A personagem de Fernanda Torres acaba de sair de um casamento e tem seu primeiro encontro com o, então, ex marido, vivido pelo maravilhoso Thales Pan Chacon.

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A história tem um único cenário: a casa onde viveram, cujos móveis estão cobertos pela nítida ausência de uma vida a dois.

Só há dois personagens: ela e ele. Tendo uma discussão sobre o relacionamento, que vai das traições que ambos cometeram ao bom e velho “cabou o amor”. Eu diria que é um “Closer” tupiniquim , com roupa dos anos 80 (figurino da Glória Khalil, se não me engano).

Eu não vou encher vocês de spoiler, mesmo porque é fácil achar esse filme na net. Mas a construção da personagem feminina é bastante forte. Ela escancara as veias e vísceras de uma mulher que foi criada para a submissão:

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A personagem conta, inclusive, de como a sua masturbação era velada, julgada, pela mãe, pela avó, pela sociedade.

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A personagem fala também sobre o quanto ele não a permitia viver, ser fraca, ser forte. Sua voz era constantemente calada. Há uma cena belíssima em que ela se comunica com o marido enquanto ele dorme e afirma que só assim ele pode ouvi-la.

“Será que eu vou ter que te matar pra você me ouvir? Será que eu vou ter que abrir no teu coração uma ferida pra você me ouvir? Pelo amor de deus não me ama tanto! O teu amor por mim só te glorifica, só te faz bonito… E eu? Eu? Eu sou o teu orgulho. Eu sou o teu desfile nas ruas. Eu sou você de vestido. Queria tanto que você me compreendesse. shhh… Faz silêncio. Ouve a minha loucura. Deve haver a possibilidade de alguém escutar o outro um dia. Deve haver uma palavra que uma vez dita muda o mundo. Me ouve, se não eu vou ter que te matar pra viver!”

Fernanda Torres disse que a vitimização do feminismo a incomoda. Ela pode achar que não sofreu nenhuma violência por ser mulher. Eu apostaria todos os prêmios da mãe dela de que sofreu, e não foi pouco. Reproduzir o discurso da violência não é raro em mulheres. Cobertas por alguns privilégios, as vendas ficam mais poderosas. É uma pena, porque Fernanda Torres tem influência.

Aliás, eu já dizia, Fernanda Torres é uma excelente atriz e deveria rever como atua bem em “Eu sei que vou te amar”. Acho que  ela se lembraria de alguns fatos de sua vida. Acho que talvez ela se reconheceria naquele sofrimento classe-média da personagem. Acho que ela não se lembra mais de uma regra fundamental da arte: não raro, ela é a própria vida.

(esse é só um comentário do acontecido, se quer ler uma crítica excelente ao acontecido, procure AQUI, é da Carol Patrocínio)

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2 thoughts on “Fernanda Torres, assista a seu filme.

  1. Anônimo diz:

    Incrível. E se me permite pedir, eu adoraria ler sua opinião a respeito do filme ou livro ” Trem noturno para Lisboa”.

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