Cartas d'ela.

Do porquê viver ao seu lado

Essa mulher teimosa e briguenta que sou já habitava na criança que eu fui. Minha mãe dizia que me aturava brigando porque era minha mãe, e porque ela me amava, enfim, mas que ninguém ia ser obrigado a me aguentar. Quando eu cresci, meus professores disseram que “com aquele gênio” ninguém seria meu amigo. Houve uma vez um rapaz que me disse que era impossível se relacionar comigo. Uma amiga disse que não dava para ser minha amiga porque eu tinha uma personalidade muito forte. Outro amor, por fim, tentou me acalmar e, não nego, por muito tempo conseguiu. E foi bom, até. Acontece que eu não estava sendo eu. Porque, quando veio você, eu me lembrei de mim: e a despeito dos inúmeros defeitos que eu tenha e de você acreditar piamente que eu acho que tô sempre certa (e num tô?), você me deixa brigar. Não só com o mundo, mas também com você: você nunca me pede pra ficar calma. Você escuta esse furor que tem dentro de mim porque você sabe que isso sou eu, no que tem de mais sincero. Mais de uma vez a intensidade com que levo a vida foi tratada como meu pior defeito e você me faz sentir como se ela fosse minha qualidade. E é por isso que amo viver ao seu lado.

Descrente de toda ideia de amor eterno, eu fico satisfeita com mais um dia. Mais um dia com você é muito bom. Se, de dia em dia, a gente envelhecer (mais), há de ter sido bom. E eu gosto do nosso amor possível: você sendo capaz de listar tudo que eu faço de errado e eu enumerando sua mudança de humor.  Houve um tempo que eu vivi um amor impossível com você: achei que tinha sido um gênio celeste esculpidor de casais que tinha te trazido pra mim. Hoje não acho. E se, por um lado, você perdeu a áurea de perfeição que te rondou nos primeiros meses que ficamos juntos; por outro, você ganhou um aspecto mundano maravilhoso: entendendo que você erra, eu entendi que eu perdoo. E entendendo que eu erro, eu me deixo ser perdoada. O nosso amor possível cobre o cansaço um do outro, não idealiza festas. Refaz trabalhos juntos, não planeja a vida. Nosso amor possível reconhece que tem dia que a gente simplesmente se detesta: e, mesmo no ápice da raiva, deixamos o pedaço mais gostoso da carne pro outro comer, lavamos um a louça que o outro sujou. Porque o amor possível não é o contrário da briga: o amor possível acolhe a briga como parte da possibilidade dele mesmo.

Hoje, três anos depois, seguimos: você na mesa, eu no sofá. Eu ainda te derrubo da cama, mesmo que ela tenha triplicado de tamanho. Você ainda rouba meu cobertor, mesmo que tenha um só pra você. Não importa o que aconteça, você não vai abrir o facebook se eu não pedir umas dez vezes. Eu também vou seguir falando coisas bêbadas para os amigos que vão te embaraçar. Eu peço pra você me abraçar pra depois pedir pra soltar. Eu te escrevo sempre e você demora a responder. E nessa demora eu descubro como o amor possível acontece: não quero sua atenção, se eu souber que você está bem, então tá bom. Porque depois você chega em casa, reclamão como sempre, e me conta como foi. E talvez eu não tenha perto de mim a versão mais descansada de você: eu te acolho é quando você tá podre. E você não tem a versão bonita, bem vestida e sorridente de mim: você me enlaça quando eu tô destruída.  Não somos nem príncipe, nem princesa. Nem a melhor, nem o melhor namorado. Somos absolutamente banais e incríveis. E nas noites ao seu lado que eu deduzo o maior motivo de estar contigo: a gente não sonha um com o outro, a gente dorme, pesadamente, lado a lado.

ps: se eu não te avisar, você nem vai saber que eu escrevi isso. Ok, te perdoo.

IMG_5441

escolhi essa foto porque você tava puto comigo enquanto eu tirava. E sorriu mesmo assim 🙂

 

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