Num é?, Pensamento Desvairado

Do amor que precisa ser escancarado

Essa é a reflexão feita por uma bêbada enquanto fazia xixi no meio de uma formatura; por isso, não levem tão a sério, ou levem muito a sério.

Diariamente, pipocam na minha timeline declarações de amor. De diferentes naturezas: das minhas alunas adolescentes que nunca tiveram uma desilusão amorosa até aos colegas mais velhos, com anos de casados, falando sobre o companheirismo da vida compartilhada. Tem declarações mais artísticas: música, poesia, tirinha; e as mais viscerais (sem você, não vivo). Tem as declarações com fotos profissionais, com selfie, com foto tremida. Tem declaração que nem tem foto, só um ‘eu te amo’, singelo. Ou aquelas que parecem uma brincadeira, mas no fundo querem dizer que amam.

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“Eu preciso dizer que te amo” é uma das músicas mais bobas e honestas do Cazuza. Nós precisamos dizer que amamos, algumas mais, outras menos: mais em maior ou menor medida, todos amamos. E é preciso falar disso. Pensei nisso bêbada quando soube do Edvaldo: alguém ama muito o Edvaldo e escreveu na porta do banheiro feminino. Ao que tudo indica, Edvaldo se reconhece com o gênero masculino. Afinal, por que, então, alguém escreveria seu amor para que o Edvaldo nem veja?

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É recorrente, via diferentes campos da filosofia e da sociologia, afirmar que vivemos uma era de espetacularização da própria vida. Verdade. Concordo com alguns filósofos de butiquim, inclusive, que muito do amor gritado talvez não seja o amor sentido, mas uma espécie de poder (capital sentimental, vou lançar a ideia pro Bourdieu, quem sabe). Mas por causa desse fenômeno, às vezes deixamos de lado a necessidade de verbalizar. Essa necessidade não é de hoje, tai o Edvaldo que não me deixa mentir.

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Bentinho descobre que Capitu o amava quando a vê escrevendo no muro. Nosso mural é online. É claro que sabemos de diferentes maneiras o amor que sentimos. É claro que está na atitude da preocupação um amor tão sincero quanto um amor escancarado nas redes sociais.

Mas é preciso MESMO falar disso. As coisas só existem quando falamos dela. Essa é a grande arma do tabu: no silêncio, ele trabalha com a invisibilidade. Assim, precisamos falar de aborto, representatividade feminina e toda polêmica escondida pelo tabu.

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Mas também precisamos falar de amor. Gritá-lo. Na porta do banheiro, no muro de casa e, porque é assim que vivemos, também via rede social. Às vezes o próprio amado nem vê aquele post (o meu não vê), mas quando eu digo o amor, ele passa a ter existência material. Existe muito amor no FB! É preciso dizê-lo para que ele exista!

ps: minha apologia ao amor escancarado não legitima a crença que o amor resolve os problemas do mundo. O amor malemá resolve nossos problemas. O mundo precisa de ética.

 

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