Cartas d'ela., Feminismo, Sala de Aula

Carta à M.

M.

minha tela piscou com uma mensagem sua, e eu fiquei muito feliz, porque adoro quando você me escreve. Quase sempre falando alguma besteira para me ridicularizar – não esqueci que você me disse que eu parecia te odiar nas primeiras vezes que nos falamos e terminamos amigas e casadas na festa junina. Bem, eu obviamente não odeio você, ao contrário, gosto muito e admiro muito tudo isso aí que você é. Apesar da felicidade, não durou nem cinco segundos. Você me enviou um link. Na notícia, uma brutalidade horrível. Você tá péssima, eu tô péssima. Mas eu precisava escrever publicamente o que essa história me causou.

Primeiro, eu me senti impotente. Enquanto meninas estão sendo estupradas, a gente se sente impotente. Mas não as meninas do mundo, minhas alunas também estão. Você e eu, também. E eu não consigo fazer muita coisa além de ouvir, abraçar e lutar com elas. Outras vezes, M., eu também recebia mensagem das minhas alunas, como você fez hoje, e corria para ler empolgada. Não foi uma, nem duas, mas várias as vezes que as mensagens estavam ali para me reportar mais um caso de sofrimento. M., que é que eu posso fazer?

Queria levar todo mundo para casa e cuidar. Mas eu não posso cuidar nem de mim, você percebe? Meu corpo circula comigo para onde eu for, eu não posso esquecê-lo em cima da mesa da escrivaninha e achar que, ufa, essa noite ele não vai ser roubado. Eu só tenho algo que é meu porque sim: esse corpo e essa alma. Mas, aparentemente, ele pertence a todo mundo, menos a mim. E alma. Essa vai diminuindo conforme o meu sorriso apaga lendo a sua mensagem.

Piora quando a gente se fala e sabe que tem gente que simplesmente não se comove. É isso: a comoção é seletiva, e vem junto com uma certa consciência que não temos como obrigar outras pessoas a terem. A gente é só palavra, M., só essa arma a gente ocasionalmente consegue usar para explicar o inexplicável: o tanto que ser humano pode ser ruim.

Por isso, M., eu gosto tanto de vocês. Por isso que, por trás da carcaça odiosa, tem um abração aberto para vocês se enfiarem, depois da aula, no intervalo, virtualmente no computador. Porque eu só tenho isso a oferecer, mesmo.

Escrevi, enfim, só para dizer, publicamente, que eu estou com você; com ela, e com todas as outras. E que se eu não posso prevenir (e nem você pode) que elas sofram, que eu possa remediar com o amor imenso que eu registro aqui.

M.

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2 thoughts on “Carta à M.

  1. Marília Rivero diz:

    Às vezes eu volto aqui e leio esse texto só pra ter certeza de que ainda vale a pena essa loucura toda.
    Vale, né?

    Obrigada. ❤

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