Sala de Aula

Tá uma merda

Trombo com meus alunos nessa virada de semestre para semestre e eles estão exaustos. Essa talvez seja a pior época do ano, porque dá tempo de pensar. No primeiro semestre, a gente tem o ano todo pela frente. De setembro em diante, a correria é tanta, que nem temos tempo de pensar na vida. Mas esse frio, esse julho, essas férias botam a gente comovido como o diabo.

E daí que o que eu queria dizer a eles é que não vale à pena sofrer tanto, mesmo que, no lugar deles, em outros tempos, eu também sofri. Eu queria dizer, com o risco de parecer pessimista – coisa que eu não sou – que, afinal, isso não vai parar nunca: tá uma merda, pessoal. Ninguém tem certeza de nada nessa vida.

Ser adulto, deixa eu explicar, tem muito de fingir bem, tão bem que até a gente mesmo acredita. Mas não é verdade: a gente não tem certeza absoluta do porquê acorda naquele horário, vai para aquele trabalho, bebe com aquelas pessoas. Alguns lapsos de paz interior fazem a gente sentir que está  no caminho certo, mas são lapsos, tá? E a gente tende a se apegar a eles para conseguir dar conta do resto dos dias.

Você vai trombar com uma galera que enche o peito para falar da sua vida perfeita e organizada. Eu não sou dessa galera: eu NÃO SEI O QUE TÁ CON TE CENO, mas eu tô sempre tentando entender. Conversar sempre ajuda porque lembra a gente que: basta estar vivo para dar bosta.

Quando somos mais novos, queremos loucamente aproveitar o momento (é justo, faça isso): a festa, o jantar, o bar, aquela noite. A idade dá medo disso, a gente acaba pensando mais na ressaca do que na bebedeira (tá, ora ou outra, falhamos e também não damos conta de viver com aquela dor de cabeça). Mais que aproveitar o momento, a gente (eu pelo menos) passo a querer aproveitar as coisas que existem de verdade: sabe, aquelas que deixam a gente plena, bem, em paz?

É absolutamente normal ficar com medo e eu tenho medo todos os dias. Quem tem medo é porque tem algo a perder, e se a gente tem algo a perder é porque a nossa vida tá valendo à pena até aqui. Então, a gente vai ter que aprender a lidar com esse medo. Rola ser juntos, rola ir abraçadinho, sim. O que não dá é para ficar parado, deixando a brisa empurrar.

Eu tenho uma aluna que sempre me diz: a gente tem que respirar. É isso, só não esquecer de respirar, ser honesto com o que você sente e pronto. A liberdade é um trem difícil e a sua vida é sua, ela não vai sair existindo sem você por aí para decidir as coisas por ela. Aceite!

miró

fique pensando por que escolhi esse quadro

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