Cartas d'ela.

Eu não fecho as portas 

Eu não fecho as portas do armário: abro, pego o que preciso e deixo a bagunça escancarada. As coisas ficam ridiculamente visíveis, é fácil saber que esse armário é meu. Eu não fecho a porta do quarto: entra quem quiser de madrugada, pessoas, demônios, problemas ou insetos. Eu fico assim, visível, quem quiser chegar que venha.

Eu não fecho as gavetas: quase sempre me arrependo batendo as pernas nelas, o que me lembra que coisas que foram abertas deveriam ser fechadas em algum momento. Mas eu não fecho! Eu que não sei aceitar o fim das coisas, prefiro sempre que permaneçam abertas. Não consigo, não adianta: sou dessa espécie errada de gente que prefere fingir que Newton talvez estivesse enganado e que a vida pode sim ser um amontoado de ação sem reação.

Mas ele tava certo. Sempre haverá uma resposta para quem deixa as portas, gavetas e armários escancarados: a nossa exposição completa. Tem gente que vai entrar, bisbilhotar e sair. Tem gente que mal olha, já se assusta e vai embora. Tem quem mexa nos cabides, bagunce as meias e arregace as roupas. Tem gente que entra e fica, sabendo conviver com minha bagunça. 

A saída é livre, porém: fica quem quer. As portas que recebem abertas, assim ficam: meu armário não prende ninguém. 

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