Pensamento Desvairado

Aquela luz amarela

Não gosto de roupas amarelas, mas gosto de luzes amarelas. Luz branca tem aquela mania de deixar a gente entre o apático e o infeliz – e sempre acaba denunciando o azul acinzentado das minhas olheiras – , enquanto a luz amarela tem aquele quentinho gostoso e um jeito bom de deixar a gente confortável. Luz amarela favorece a pálpebra semicerrada, e é tão bom ficar com os olhos entre o aberto e o fechado, prometendo uma visão parcial (e, por isso mesmo, mais bonita) do mundo. Luz amarela parece fim de dia de outono, no jardim do instituto no segundo ano de faculdade, quando eu sabia que no dia seguinte eu só teria que pensar numa forma nova de aproveitar todos os meus minutos da maneira que eu bem quisesse. Parece que luz amarela promete mais minutos nessas horas de prazer. Traz de volta pra gente um gosto bom que a gente tinha esquecido: o de postergar a preocupação. Luz amarela é luz prazerosa, luz pra fazer cafuné (luz branca é de computador, pra gente estudar e reclamar de política). Luz amarela vem com chocolate, com pizza, acompanha beijinho na nuca, é cor de sol renovando a energia dos diurnos.

Que injusto eu dizer que desprezo tanto o amarelo. Eu que sou uma criatura do dia. Bem mais girassol que rosa.

Luz amarela de semáforo eu também gosto, porque num tem resposta certa, ali. Eu que lido tanto com alternativas e soluções, gosto de me lembrar que, na verdade, vida nenhuma tem gabarito. E não são poucas as vezes que, não querendo ter que decidir, a gente espera que decidam por nós. É fácil lidar com proibições e permissões totais: verde anda, vermelho fica. Mas o amarelo pede decisão, autonomia: será que tá mesmo na hora de entrar de cabeça nisso? Será que eu deveria recuar de vez? O amarelo me lembra que é bom pensar mais um pouquinho em como não pensar em nada e aproveitar aquela esquina com semáforo para abrir a janela, cantar aquela música que tocou em lopping nos últimos dias e respirar o ar da cidade. Pressa pra quê?

Tem gente que é luz amarela, que tem gosto de cerveja (amarela!), de fim de tarde amarela, de soneca depois do almoço, de semáforo indeciso, de mão percorrendo as costas da gente e voltando com a certeza de mais um arrepiozinho. Gente que vem pra sacudir as imposições vermelhas e as liberdades – às vezes livres demais – verdes. Gente que faz a gente pensar mais cinco minutinhos. Gente que lembra a gente que a decisão é nossa – até de decidir não decidir nadinha e abrir mais essa amarela cerveja.

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