Num é?

Let´s game start

“A gente era diferente, sabe?” A velha crença de que a gente podia falar tudo. Tudo. Não se escondia nada. Nenhum sentimento, nenhuma aflição, nenhum medo. A gente fica pensando a sorte que tem de estar ali: em frente a mim, a pessoa com a qual eu era tão desnudamente eu. Eu, que era eu quando falava as breguices de amor – que o amor é brega, né? – e não mentia em nenhuma resposta. Sabe as respostas do dia a dia? Tá tudo bem? Quer falar sobre isso? O que você acha? Como foi lá? Eu não mentia nenhuma resposta, não havia um suspiro de hesitação, eu não disfarçava. Não tinha nada desses joguinhos que eu joguei a vida toda: nem vou mandar mensagem agora porque ele vai pensar que eu tô assim ou assado; não vou abraçar dessa forma ou daquela para eu não dar na cara que tô completamente afim; não vou chamá-lo pra vir aqui 5 minutos depois que ele foi embora porque senão ele vai saber que eu sinto a falta dele mais do que eu deveria.

Porque supostamente existe um padrão estabelecido do nível de interesse que é aceitável, que traz saudade, que faz a pessoa querer ir mais afundo na relação que vocês estão estabelecendo.

Mas a verdade é que eu nunca me dei bem com padrões.

E, se, por um lado, passei a vida jogando esses joguinhos, por outro, eu desconfiava que chegaria algum dia em que eu não faria jogo algum. Que eu seria eu, plena. Que eu diria se estou com saudade, mesmo que a pessoa ainda estivesse ali comigo – saudade da ideia de que ela vai embora já é saudade.

E não é que eu não encontrei essa pessoa. A gente encontra, até mais que uma, às vezes. Mas chega uma hora, chega aquela bendita hora, que, de repente, ser você do jeito que você é, não ta mais tão bom. E aí você começa a medir as palavras; a demonstrar desinteresse para (quem sabe? ) a pessoa se interessar. Chega o dia que não você não quer ser mais a pessoa que escreve a mensagem, que manda a música, que pede carinho, porque você simplesmente sabe que você pode de repente não receber a resposta de volta. Desde quando gostar é um negócio ruim, mesmo?

Será que existe no mundo quem aguente a gente, na nossa melhor – mas principalmente na pior – versão de nós mesmos? Eu não tô aqui falando de submissão, não. De ser escroto o outro não se importar. Eu tô falando: será que existe a possibilidade de a gente ser estupidamente fraco e isso não gerar pena, raiva, mas a possibilidade do amor?

Até lá, é provável, os jogos continuam. A gente sorri bastante. E eu não sei dizer com certeza se isso é inevitável. Eu não sei dizer se isso é necessariamente ruim pra todos. Eu não sei se é chato pra todo mundo. Só sei que nessa história, eu ando uma peça cansada demais para se movimentar no tabuleiro.

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