Feminismo

A quem não comemora o dia de hoje

O dia das crianças é lindo. Todo mundo com aquela foto fofa no perfil. Eu constatando como, de fato, filhotes são sempre melhores que animais crescidos. Fico querendo que o tempo pudesse voltar só pra mim e eu pegasse meus amigos crianças pra abraçar, morder e brincar no tapete da sala.

Mas hoje é uma ótima oportunidade pra gente falar sobre abuso infantil. Só no primeiro trimestre do ano passado, mais de 21 mil denúncias ocorreram, relatando abuso infantil. Eu sei que, provavelmente, você deve pensar o absurdo que é isso, mas o que os dados nos contam é que isso é mais frequente do que a gente imagina.

Não raro, meus alunos me relatam experiências traumáticas da infância. Ontem mesmo, um amigo me revelou a sua, anos depois. Várias de nós reprimimos as histórias para poder continuar vivendo, lembrem-se, por exemplo, da campanha #meuprimeiroassédio.

Apesar disso, por proteção, talvez, tentamos viver como se a violência sexual contra crianças fosse uma realidade pontual. Não é, em muitos casos, ela é endêmica. No Brasil, não tenho dúvidas que seja.

É claro que, não sendo nós abusadores/assediadores de criança, nos sentimos ilesos da responsabilidade, mas não estamos. Precisamos fazer a nossa parte.

Como? Lembra lá: evitando a hipersexualização precoce, por exemplo.

Acho curioso quando as pessoas me olham com cara de espanto por eu defender ferrenhamente roupas sem gêneros para bebês/crianças que não podem escolher a própria roupa. Acham que eu sou radical por gostar e elogiar minha mãe por não ter furado minha orelha quando eu nasci. O radicalismo, meus queridos, talvez seja necessário nesse universo ESCROTO que é o nosso: quanto mais desassociarmos crianças aos gêneros, mais fácil podemos tirar delas o caráter sexualizável atribuído. 

É óbvio que, DE FORMA ALGUMA, a hipersexualização JUSTIFICA o abuso. O que é preciso lembrar, PORÉM, é que colocamos as crianças em situações de risco e NATURALIZAMOS alguns abusos e assédios.

Claro que somos um grãozinho de areia perto da força midiática e da indústria cultural como um todo. A mídia, por exemplo, sexualiza crianças desde sempre. A mídia torna natural falar em relacionamento romântico na infância. A mídia incentiva a separação entre meninas e meninos e que eles estão numa competição de gênero e só se unem via amor romântico. E isso tem tudo a ver, também, com uma sociedade que ensina que a fragilidade é passível de violência. Crianças são socialmente invisibilizadas e têm sua fragilidade natural – aquela que é intrínseca à idade – transformada em subterfúgio para violência.

Eu fico muito feliz mesmo se a criança da sua família está sentada no sofá nesse momento, feliz, saudável psicologicamente e fisicamente. Mas não esquece que um monte de outras não está, e a luta, que é diária, nunca para.

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