Pensamento Desvairado

Fofurinhas

Essa semana, li com meus alunos  uma crônica do Ivan Martins que é super interessante, chama “Os Códigos do Afeto“. Nela, o feio-bonito discute que criamos códigos privados – na maioria das vezes embaraçosos, para sinalizar para outra pessoa que está conosco que a gente gosta dela. E isso,  no limite, faz surgirem apelidos ruins e barulhos esquisitos. Ou vozinha, também. Acho engraçado pensar sobre a esquisitice das pessoas e como essas coisas podem deixá-las apaixonantes ou insuportáveis. E é tudo tão subjetivo quanto uma paixão pode ser.

Gente que morde o lábio pra pensar talvez seja o traquejo mais padronizadamente estabelecido como interessante e, justamente por isso, amplamente apropriado. Aí não tem a mesma graça. A graça está nas coisas que fazem da pessoa ser o que ela – e todo seu charme – é sem, no entanto, que ela perceba que é isso. Bons jogadores na arte da sedução não revelam às pessoas quais são esses elementos tão sedutores, senão são facilmente coaptados.

Eu, porém, que não vejo paixão como jogo e que não quero perder nem ganhar, geralmente deixo explícita essas, por assim dizer, ‘fofurinhas’ que me seduzem. Eu entrego o jogo bem rápido, até pelo meu olhar… Fofurinha é traquejo, malemolência, é mimetismo. O jeito que olha, o jeito que ri, o jeito que apoia a mão na cintura. O jeito que debruça na janela ou descansa despretensiosamente na pia. O jeito que amarra o cabelo. O jeito que dedilha a minha pele enquanto percorre o desenho das minhas tatuagens.

É bem provável que eu não lembre com exatidão detalhes físicos das pessoas por quem me apaixonei nessa vida. Mas essas fofurinhas: a postura, o modo como sorri ou pisca são sempre um negócio inesquecível. Porque é aí que eu me balanço. É no modo de sentar, de conversar, de comer, de segurar o copo. Eu já me desapaixonei jantando com uma pessoa: não tô falando de etiqueta na mesa, não; eu desapaixonei porque faltava a vontade de comer, o modo de conduzir tudo como se o almoço fosse o momento mais banal do mundo. Eu gosto de gente gosta de comer e isso conta muito mais que olho claro. Faltava paixão. Por outro lado, já me apaixonei vendo alguém comer com devoção e carinho. Se a pessoa não tem carinho quando se alimenta, nunca vai me entender.

Eu gosto de gente que vira a folha pra escrever. De gente canhota – que fica especialmente bonita abrindo latas e usando tesouras. Gosto do jeito que contam histórias. Gosto do jeito que discordam ou concordam comigo. Gosto de gente que demonstra as coisas. O silêncio não me atrai.

E a fofurinha só vem quando a pessoa está desarmada. Gente que se programa demais não tem espaço para dar conta da autenticidade da fofurinha. Quem pensa demais na própria forma de conduzir a conversa, pensa demais em como conduzir a vida. E o bonito tá no inesperado, no gesto que entra de bicão no meio do nosso tão treinado comportamento.

Gosto do jeito que se espreguiça ou do jeito que me chama. Gosto do jeito que mexe na minha unha. Gosto da mania de respirar bem fundo, à toa. Gosto que enrolem pra me dar algo que eu pedi – vai entender? Não sei explicar, não saberia desenhar, nem apontar como tudo isso funciona. É um negócio que palavra nenhuma explicará o suficiente e que foto nenhuma vai deixar transparecer…

Hoje, porém, o mundo é das imagens. Vemos e cansamos de ver as pessoas por fotos, e, por mais linda que seja a foto e a pessoa – e que isso seja evidente e real – nunca a foto poderá capturar a fofurinha. Nunca dará conta. O bonito tá na cara amassada de sono, no sorriso meio de lado, meio torto quando ele se constrange. A felicidade que parece mais animada quando ri da minha cara e faz de mim o alvo das piadas. Achar bonito na foto é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é se manter forte e indiferente ao modo como a cintura é enlaçada e envolvida. Ao cheiro. À forma como distribui o peso quando pesa sobre mim, ou beija bem no meio das minhas costas, onde ninguém vai beijar. O que é só dele e dela é que o que faz da gente dela e dela. Não adianta: mãos delicadas, cabelo bonito, barba ou um sorriso nunca vão superar, em seu poder magistral de virar a gente do avesso, a forma como ele ou ela, na exata despretensão de só querer ser só exatamente o que se é, vivem.

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