Cartas d'ela.

Tetris

Eu amo ele, mas a gente é muito muito muito diferente. Eu sempre disse que  tem músicas e filmes que acho bom nunca associar a um caso amoroso, porque daí passa, às vezes dói, e lá se vai uma parte importante da minha playlist embora e, convenhamos, a nossa playlist é um pequeno tesouro, não dá para sair distribuindo moedinhas dele de maneira irresponsável. Mas tem umas músicas lá que foi ele que me apresentou. Parece gospel norte americano, sei lá, comecei a gostar e  quando me dei conta tocava logo em seguida aquela minha favorita que – merda” – lembra tanto ele. Foi nessas que veio ele e meu deus do céu parece jogo de dominó, porque encaixa. Eu tava na boa sozinha, reaprendendo meu espaço de solidão, acostumando com a cama gigantesca. E veio ele.  E o muito louco é que eu sempre enfatizo que, afinal, somos diametralmente opostos e ele diz ‘nem tanto’, mas é.  A gente é completamente diferente, sim. Mas encaixa.  Deve ser isso mesmo, já que peça de tetris igual não costuma encaixar bem, a ponta de uma gosta do buraquinho da outra e eu nem veria malícia nisso, mas ele veria então to aqui prevendo que ele riu nessa parte.  Isso sem contar que ele pega minhas manias, tá cortando palavra e tomando chá, até parece, justo eu, tô aqui vendo palestra sobre cérebro humano. Mas a gente é bem diferente. A gente não curte as mesmas coisas não, só algumas, tipo cinema, filme, trabalho. A gente trabalha muito e se promete trabalhar menos, ninguém cumpre, viu? Mas também ninguém cobra que cumpra. Acho que fizemos um acordo tácito de que, enfim, é isso que a gente é, apesar de ser diferente.  E quando digo diferente é diferente mesmo, sabe? Ele não curte dançar, cê acredita? Nem beber, e eu, onde der, tô bêbada e dançando. Diferentão, né.  Não orna, na realidade. Mas a gente tem tentado. Por exemplo, nunca vi ele fazer as coisas sem pensar e eu tô sempre aí, não pensando no que to fazendo.  Veja você esse texto sem nexo, ele jamais publicaria e eu tô aí, sabendo que ninguém vai entender. Ou vai, vai saber, não é. Olha que nessas coisas de amor todo mundo – até euzinha – fica meio tonto, meio besta, meio inseguro. Olha, mas ele não fica não. É doido que pra ele as coisas parecem ter outra cara, como se ele conseguisse colocar um óculos amenizador de realidade. Nem sempre ele entende que eu uso um óculos intensificador e a gente acabando não vendo as mesmas coisas.  Ah, temos algo em comum: ele também ama vermelho. E eu amo ele, comentei com vocês? digo sempre, sabe, que acho que falar e escrever faz existir o amor também. Ele acredita na existência silenciosa das belezas da vida – mas se for ver bem, ele não cala a boca. Nisso a gente não é diferente, mas quando vejo fico quieta, sim. Não sei o que dizer o tempo todo, não. Fico noiada. E as nóias? Jesus amado, minhas nóias não são as mesmas que a dele, eu briso na sujeira da roupa e ele escova o dente duas vezes seguidos por uma hora quase, mas agora ele não deita de roupa suja na cama, não, ele entendeu que é importante pra mim e tal. Você veja só que louco, tô escovando o dente enquanto escrevi esse texto, de uma vez só, porque eu amo ele e preciso falar e tá tocando minha música favorita agora. Escuta: não é a cara dele?

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