Sala de Aula

O aluno no segundo ano de cursinho

Estava preparando a aula, e pensando no que já sabia sobre isso, pensando no que deveria pensar para aprofundar essa questão e o meu pensamento recaiu sobre a imagem de alguns alunos, cuja lembrança me fez pensar muito em mim mesma enquanto profissional: os alunos que estão fazendo cursinho pela segunda vez (ou terceira, ou quarta).

Cursinho – para que tem o privilégio de poder pagar um que se preocupe de fato com o aluno ou  para aquele tem a sorte de conseguir vaga num popular legal – pode não ser uma experiência de sofrimento. Ao contrário, talvez seja uma situação onde o aluno só sinta a felicidade pelo novo aprendizado e a excitação típica do universo, que é quase sempre muito disposto, alegre e risonho. Sorte a minha de trabalhar em lugares que prezam a sanidade mental dos meus alunos, eu sei.

Volto para ele, esse arquétipo que me preocupa tanto.

Será que ele tem dimensão do quanto existe um mecanismo social perverso que o coloca na posição de culpado?

O aluno no segundo ano de cursinho deveria receber um olhar cuidadoso da nossa parte. No segundo ano do cursinho, a pior sensação do mundo nos toma de imediato: eu fracassei. Ainda que racionalmente o aluno saiba que não fracassou – e, como professor, deveríamos lembrá-lo que quem está errado é o sistema – o coração aperta, os sentidos acusam: de novo as mesmas caras, gestos, piadas, conteúdos. Por mais que um professor refaça sempre sua aula de um jeito diferente – e eu me esforço o triplo porque sei que a repetição mata qualquer boa vontade – ainda há no novo o amargo componente do “eu já vi isso antes”.

A minha forma de me portar em aula pode ser um lembrete silencioso de uma falsa derrota.

O aluno no segundo ano de cursinho obviamente sofre mais que os demais com a pressão social da meritocracia.

Não tenho as armas prontas pra resolver isso. Não sei se é possível uma solução plena.

Mas queria deixar registrado, querido aluno, que a sua companhia é incrível e eu passaria mais anos ao seu lado. Eu desejo que você vá embora só porque eu quero ver você atingindo uma realização pessoal. Se você conseguir superar essa prova complicada, não se esqueça: parabéns, seja feliz, mas você não é melhor que o resto.

Se não conseguir: parabéns, seja feliz, você não é pior que o resto. Não tem a ver com inteligência, tem a ver com capacidade de acumular o conhecimento específico e uma imensa dosagem de sorte e paz de espírito.

Não acabe com a sua saúde mental. Nenhum conhecimento nunca será em vão. Nenhuma vida – ACIMA DE TUDO – nunca é fracassada. Vem cá, pega o café, me dá um abraço e força.

Resultado de imagem para gif  teacher

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s