Cartas d'ela.

Carta a A.: sobre amor próprio.

A.,

receber sua mensagem foi uma surpresa, de diferentes formas. Você sempre me disse que os meus textos a ajudavam, mas eu não imaginava que você – uma mulher tão linda – precisasse tanto. Olha, A., falo isso sem a pretensão de que mulheres lindas não sofrem e, tendo lido agora sua resposta e compreendendo o que você está sentindo, sei a dor que é. Antes de mais nada, receba esse texto como um abraço e não um conjunto de regras sobre amor próprio. Não imagine, também, se, hoje, visto o que quero e vivo como quero que eu não tenho, cotidianamente, dúvidas sobre mim mesma, especialmente sobre estética. É duro assumir isso: mas amar a mim mesma não significa que eu consiga me achar bonita. Às vezes eu acho, honestamente.  E é claro que isso acontece quando eu estou em paz por outros motivos.

Eu aprendi a encontrar segurança em outros caminhos: sempre me achei muito inteligente, e dizia a mim mesma que isso compensaria o fato de eu ser gorda. Maior cagada isso, A., porque são grandezas complementares, e não se anulam. Eu posso, então, ser bonita, inteligente e gorda.  Falar é mais fácil que sentir. Começar falando é sempre um bom começo.

Vale lembrar sempre que as mulheres mais bonitas que eu conheço, com mais frequência do que pensamos, não se acham bonitas. As noias que a sociedade cria nas nossas cabeças são tão bem enraizadas que NÃO VÃO SAIR. Eu já não trabalho com a ilusão de não tê-las, eu trabalho sempre com ações afirmativas, remediando isso tudo que me corrói. E um dia de cada vez. Um dia bem, um dia nem. E vamos aí.

Você tocou um aspecto que dói demais: não ser assumida. Você, tão ou mais consciente do que eu, sabe que é assim: a sociedade impõe que o nosso valor se dá diretamente pelo nosso sucesso em relacionamentos amorosos e, nesse caso, com homens. Sabemos que homens são pressionados por todos os lados para venerarem mulheres estabelecidas como padrão – o que não é nosso caso, ainda que estejamos num espectro privilegiado de mulheres brancas. Ou seja, andar de mão dada conosco seria assumir, publicamente, que são perdedores, absolutamente fracassados. Homens não querem assumir fracassos, porque isso reduziria os valores deles socialmente, na mesma proporção que não estar no padrão reduz o nosso. Sabemos disso, meu bem. Mas isso não diminui…

…a dor de quando soltam a nossa mão em público. Nada mais bonito que andar de mãos dadas com a pessoa que você gosta e sentir que a mão se solta e escorra dos nossos dedos é perder, nesse movimento, o chão. É quase pisar em falso. Eu entendo. Ou quando nos dizem que “namorariam conosco”, mas não namoram. Porque não namorariam uma mulher gorda. Ou “não se apaixonam”, porque para deixar a paixão bater, é preciso autorizá-la, e o coração livre não pode carregar o medo do julgamento do outro…

Sinto dizer – é até pior dizer – muitos deles se apaixonaram por você e muitos outros se apaixonarão. Acontece que há muita incompetência nesse mundo e a maioria desse caras não está instrumentalizada a viver coerentemente com o que sentem.  Eles apenas seguem uma lógica perversa. Você, então, é absolutamente passível de amor. Não existe um jeito de ser linda e TUDO BEM que você saiba disso e não consiga viver plenamente. Você está absolutamente autorizada a ser incoerente, tá?  E chorar em posição fetal por um escroto, contanto que chore pensando ‘queria que ele fosse menos incompetente’ e não ‘queria eu ser diferente’. Derrame lágrimas pela incapacidade alheia, não pelo seu corpo. Seu corpo saudável, bonito, que te permite tantas sensações. Seu corpo que merece o toque de muito afeto e que desperta tanta admiração e cria o que há de mais importante na vida humana: memórias felizes.

Eu não posso garantir que um dia você vá encontrar alguém que te assuma, te venere e te cuide como você merece.  Mas uma coisa eu posso: que se você souber o quanto você vale, ninguém poderá te deixar por muito tempo com esse gosto amargo da troca. Não há troca quando não houver escolha. Não seja uma opção. Opte, você, só pelo que te faz bem.

Eu já fui trocada e aprendi que não foi uma troca, porque eu não ia me deixar ser uma opção. Seja sua prioridade, sempre. Vai por mim: vão te chamar de gorda metida, gorda ‘que se acha’, gorda – qualquer adjetivo. Deixa que digam, que pensem, que falem.Um belo dia, você vai estar tão em paz com seu corpo que você vai sorrir e sentir uma pena desgraçada de quem não teve a sorte de viver mais um minuto dessa passageira vida com você.

Ah, eu te acho maravilhosa.

Um beijo,

M.

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