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Do amor

A primeira vez que o amor chegou aqui, mal sabia o que fazer. Ficou procurando em mim algo que oferecesse algum tipo de estabilidade e conforto, mas eu era nova demais e explodia toda hora, criando um novo ciclo a cada oportunidade. Eu, que mal sabia quem era, também não soube reconhecê-lo e nem sabia de que modo me portar para dizer: chega mais, vamos conversar. Essas diferenças vão ser irrelevantes anos depois: naquele momento, no entanto, não eram. E o amor foi embora.

Quando voltou, veio acompanhado. Diferente de antes, eu tinha sido tomada por completo. Eu não distinguia os dias e mal sabia onde começava eu e terminava ela, a paixão. Eu fui sendo mastigada – e porque eu também queria -, dissolvida e engolida. Eu construí, tijolo por tijolo, uma história que parecia inabalável, e na primeira vez que desmoronou eu aguentei forte tranco (afinal, se era amor, merecia o perdão). Fiz trilha sonora e roteiro original. Fui minha própria diretora, e não soube a hora de admitir que os créditos precisariam subir em breve. Já não havia mais enredo algum. Não me sobrou nada. Nem o amor, nem a paixão, nem a mim mesma.

Com a faísca que me havia sobrado, fui reconstruindo minha fogueira. Eu seria tão forte, mas tão forte que eu queimaria sozinha uma cidade inteira. Sozinha, eu sentiria. Eu não precisaria de outro pra nada. Eu nem sequer convidei o amor dessa vez. Eu queria estar com quem admirasse e não me machucasse e isso já seria o bastante. Sentir demais tinha doído tanto. Eu vi, confesso, a paixão passar. Eu reconheci de longe seu cheiro, mas tratei de espantar pra longe de mim. Eu não queria qualquer coisa que pudesse abafar a fogueira que eu havia, tão devagarzinho, reacendido: só uma brisa leve, daquelas que nem apagam nem aumentam a chama. Vi a paixão me bisbilhotar de longe, e eu a ela. Senti saudade dos cabelos compridos que a paixão agora usava, mas fingi – muito mal – que não. Eu até fraquejei e procurei por ela, mas ela já não me ouvia mais.

E foi quando eu percebi que não querer sentir o que poderia doer estava me impedindo de sentir, o que quer que fosse. Mesmo assim, fiquei quieta. Sentindo saudade de tudo, mas quieta.

Era um dia, até então banal, quando ela voltou. Você por aqui, paixão? Quanto tempo. Da última vez que nos vimos, você fugiu de mim. Eu de você. A gente se machucava. Mas a paixão dessa vez tinha uns olhos tão gigantes, que nem combinava aquela dor toda. Eu já tinha fugido dela tantas vezes e, no fim, era nela que eu pensava de novo. Dessa vez eu não fiz roteiro, ele se escrevia. Não tinha trilha sonora, ela cantava. Ela trouxe com ela um amor – aquele meu velho conhecido – mas ele estava calmo. Parece mentira, eu sei, mas da pra arder de paixão na maior calma do mundo. Com necessidade, mas sem pressa. Com intensidade, mas sem dor. Com um tesão desgraçado, mas com carinho. Com inseguranças, mas não com medo. Da para achar quem alimente sua fogueira, e não a apague. Da para trazer tanta luz para perto da sua que iluminaria uma cidade inteira.

Da para ter saudade e ser incrivelmente bom.

Porque depois tem mais.

E como um saco mágico de contos de fada: quando mais se dá, mais se tem.

Eu, que aprendi tudo de paradoxo nos livros, desconhecia a beleza do desesperadamente em paz; do acolhimento com tesão. Era como se fosse um dia de chuva desgraçada, com raios e trovões: e de dentro da janela as gotas soassem como uma leve canção de ninar.

Estado permanente de fascínio instantâneo.

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