cabeludo

Leia pela segunda vez

Uma técnica milenar de professor de produção e interpretação de texto é pedir, no imediato momento em que o aluno diz que não entendeu – ou o próprio erro, ou texto – que se leia de novo. É preciso ler uma segunda vez, especialmente quando a gente já está muito cansado ou há muito tempo vendo a mesma coisa, porque daí fica quase impossível de atingir a distância necessária com aquelas letras e superar a mera decodificação: a intimidade é necessária para a compreensão, mas a repetição sem sentido também banaliza.

Leia e leia em voz alta.  Leia para outra pessoa. Conte sobre o que você leu. Recapitule. Imagine a cena descrita.  Imagine-se expressando esse ponto de vista em praça pública: parece descabido? Então, não escreva. Seja responsável com sua literatura, seja responsável com seu leitor. Escreva na exata coragem em que você diria. Mas também não se culpe demais se você acabar escrevendo melhor do que fala: eu sou dessas, e, tem hora, de a palavra dita é rápida demais para mim. Não cometa o meu erro de escrever no desespero e apagar, por puro ego ferido, o que te faz sentido na vida. Eu me perco em mim mesma. Eu deveria sempre ler duas vezes. Eu preciso respirar, esfregar os olhos, reler a ordem do que eu disse. Às vezes não vejo meus erros, nem as mais banais vírgulas separando sujeito de predicado. Então eu estralo os dedos, estralo o pescoço, estico os braços, penso mais um pouco. Releio. Escuto minha voz falando alto ali dentro. Escuto meu coração dando uns pitacos. Penso em que me lê.

Nesse processo maldito-quase-paranoico, às vezes eu apago o que eu escrevo. Não me arrependo completamente, mas se eu tivesse tomado distância… Se eu tivesse pensado, por um segundo, que talvez fosse tão melhor que eu tivesse lido uma segunda vez. Mais calma, mais descansada: eu não apagaria.

Eu também não teria ido embora de quem merecia me ter do lado. Eu não teria tanto medo de arriscar minhas fichas na paixão mais avassaladora que eu senti. Acontece, que com a vista cansada, a gente não consegue ver direito o que faz sentido pra gente. E eu tava cansada e maltratada demais. Era preciso ter paciência e não sair apagando minhas palavras e um bocado de sonhos só porque o sono me impedia de escrever exatamente o que eu queria.

Eu li de novo. Eu li em voz alta. Eu expliquei para as pessoas. Não existe nada mais eloquente do que a história que eu tô escrevendo – a quatro mãos – agora.

 

 

 

 

 

 

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