Cresci sendo encorajada a ser uma mulher forte. Acima de tudo, devo a minha criação familiar o desejo de ser uma mulher forte. Minha mãe, que é a mulher mais forte que eu conheço, achava que não era porque se emocionava e chorava muito, especialmente em situações de estresse e exaustão. Na minha cabeça, então, chorar durante a discussão, o cansaço, o filme, ou qualquer situação que nos aflore a emoção era sinônimo de fraqueza.

Descontruir padrões calcados socialmente é sempre um processo longo, demorado, minucioso, de formiguinha. São muitas coisas a descontruir desde que o feminismo entrou na minha vida. A sensibilidade é a desconstrução do momento.

Não era eu quem associei, livre e espontaneamente, o choro – e em seu bojo, a sensibilidade – à fraqueza. Na realidade, essa é a regra social. E existe um padrão maior que esse: a sensibilidade é da ordem do feminino, portanto, chorar e ser fraco é o feminino por excelência. A força e a capacidade de isenção emotiva são masculinas.  Ok, até aí, nenhuma novidade, todo mundo já sabia que homem não chora.

A novidade é em como me entendo como forte. 

Quando eu era adolescente, eu transbordava. Sofria demais, chorava, sentia profundamente tudo. Adolescentes são assim (eu adoro e por isso escolho trabalhar com eles). 

Eu ouvi tanto que eu era exagerada, dramática e entre outras coisas, que eu fazia de tudo pra aprender a ser fria e não chorar. Meu sonho era discutir e não chorar. Ficar adulta tinha isso de meta: não chorar. Nunca chorar na frente dos outros. 

Adianto a vocês que falhei miseravelmente. Em todos os dias na minha vida, Eu falhei. Passei a vida tretando – esse é o meu modo – e chorando, chorando, chorando. Demorei pra aceitar que a idade não ia me impedir de transbordar e que eu nunca vou ser uma pessoa fria e racional, por mais que eu quisesse. Odiava porque isso me fazia parecer fraca e eu queria provar pra minha família e professores que eu não era sentimento, eu era razão. Afinal, eu estudava tanto, não podia perder isso para minha ansiedade e emoção. E quanto mais eu fugia dela, mais eu entrava. Eu choro, mesmo. Pareço louca. Desisto da conversa no meio se a pessoa não escuta. Faço a maluca mesmo. Às vezes, acham que eu sou piradinha. 

A única vez que senti uma dor emocional profunda e não chorei eu soube que tinha esgotado toda minha empatia pela pessoa que me causava ela. Ele tinha conseguido minar o que era mais meu, a minha sensibilidade.

Essa chorona, hoje, é aquilo que sempre soube que seria, escritora. E muito embora o meu livro tenha muita teoria envolvida, ele é um livro de escrita criativa e de sensibilidade. Ele é, pasmem vocês, um livro de mulher forte e chorona.

Por que me incomoda tanto chorar? Porque o mundo entende o choro como uma desistência.

Ou é dor ou é tristeza.

Não é.

Nem o choro de um bebê significa uma coisa só, por que o meu significaria?

As minhas lágrimas – todas elas – carregam um universo complexo de emoções, pensamentos, sensações e teoria.  Teoria sim. 

Acreditar nesse pensamento que opõe razão e emoção, exatas e humanas, força intelectual e sensibilidade é burro. Cartesiano e burro. Masculino e burro. Simplista e burro.

A neutralidade sempre serviu ao patriarcado e ao desmerecimento de mulheres. A sensibilidade, não se enganem, não é feminina, é humana. Transformar homens em muralhas avessas à sensibilidade foi uma forma patriarcal de mutilá-los e nos rebaixar, subestimar, desqualificar. Minha qualidade intelectual não se altera jamais pela minha sensibilidade.

Pelo contrário, ela me deixa criativa, empática, disposta e capaz de raciocinar criticamente. 

Como professora, sei da importância dos afetos para uma aprendizagem significativa. Por que isso seria diferente na minha vida? 

Sou uma mulher forte, como é forte minha mãe, a Carol, a minha melhor amiga. Forte e inteligente, com capacidade intelectual suficiente para saber que sensibilidade e emoção alguma impedem a minha voz. Lamento por aqueles que não enxergam isso e sigo firme, entre lágrimas, na minha defesa pela sensibilidade.

 

Anúncios